Paleontólogos descobrem no nordeste do Brasil o fóssil de formiga mais antigo do mundo

Publicado em 24/04/25 às 17:06

Um fóssil impressionante de aproximadamente 113 milhões de anos, encontrado na região nordeste do Brasil, acaba de redefinir o que se sabe sobre a evolução das formigas. Com apenas 1,3 cm de comprimento, o espécime pertence a um gênero totalmente novo da subfamília extinta Haidomyrmecinae — as infames “formigas do inferno”.

A descoberta foi detalhada recentemente em um estudo publicado na revista científica Current Biology e marca a primeira evidência de formigas do inferno no antigo supercontinente Gondwana. Até então, os fósseis mais antigos desse grupo haviam sido encontrados em âmbar no Mianmar, datando de cerca de 100 milhões de anos, além de registros no Canadá e na França — todos do hemisfério norte.

Fóssil da Vulcanidris cratensis / Imagem: Anderson Lepeco

Achado raro na Formação Crato

O exemplar foi encontrado na famosa Formação Crato, um sítio fossilífero de renome internacional. Ele faz parte do acervo do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP), onde foi estudado por uma equipe liderada pelo entomologista Anderson Lepeco.

Eu não acreditava que poderia encontrar algo assim”, afirmou Lepeco, autor principal do estudo.

Nunca houve evidência definitiva de formigas nesta coleção, e agora encontramos um espécime incrivelmente completo.

A equipe utilizou técnicas de imagem 3D para observar os detalhes internos do fóssil, o que permitiu classificá-lo na árvore evolutiva das formigas.

O aspecto mais intrigante do fóssil é sua mandíbula voltada para frente, semelhante a uma foice — uma característica típica das formigas do inferno. Junto com um chifre na cabeça, esses traços anatômicos sugerem que o animal utilizava essas estruturas para capturar ou perfurar presas, um comportamento predatório sofisticado para a época.

“É um tipo de mandíbula muito incomum, que não existe em nenhum inseto vivo atualmente”, destacou Lepeco. Alguns cientistas especularam que essas mandíbulas também poderiam ter servido para transportar gotas de néctar ou água, mas a teoria mais aceita é a de que eram instrumentos de caça.

Desaparecimento misterioso e especialização fatal

As formigas do inferno desapareceram do registro fóssil cerca de 78 milhões de anos atrás, antes mesmo da extinção em massa do Cretáceo-Paleógeno que eliminou os dinossauros. A ausência de fósseis próximos à fronteira da extinção sugere que esses insetos podem ter desaparecido devido a mudanças ecológicas e climáticas anteriores ao evento catastrófico.

Segundo Marek Borowiec, entomologista da Universidade Estadual do Colorado, que não participou da pesquisa, a especialização extrema dessas formigas pode ter sido seu ponto fraco:

Se elas dependiam de presas muito específicas, a escassez dessas fontes alimentares pode ter levado à sua extinção.

Um novo capítulo na história das formigas

A descoberta deste novo fóssil brasileiro amplia significativamente o conhecimento sobre a diversidade e a distribuição geográfica das formigas no período Cretáceo. “Sabíamos que as formigas do inferno eram diversas e bem-sucedidas, mas agora sabemos que também estavam presentes no hemisfério sul”, explicou Christine Sosiak, entomologista do Instituto de Ciência e Tecnologia de Okinawa.

Além de enriquecer a compreensão sobre a evolução das formigas, a descoberta também pinta um quadro mais complexo do ecossistema que existia durante a era dos dinossauros, onde insetos extraordinários como as formigas do inferno desempenhavam papéis ecológicos únicos.