Estudo revela massacre e possível canibalismo na pré-história britânica

Publicado em 05/01/25 às 06:38

Uma descoberta macabra revelada recentemente por um estudo está reescrevendo capítulos sombrios da pré-história europeia. Restos mortais de pelo menos 37 pessoas, incluindo homens, mulheres e crianças, foram encontrados em um poço de 15 metros de profundidade no sítio arqueológico de Charterhouse Warren, na Inglaterra. Publicado no respeitado periódico Antiquity, o estudo revela o maior exemplo conhecido de violência interpessoal na Idade do Bronze Inicial, com evidências de que as vítimas sofreram desmembramento deliberado e possivelmente canibalismo.

Os pesquisadores analisaram mais de três mil fragmentos de ossos humanos descobertos na década de 1970, mas que só agora foram minuciosamente estudados por uma equipe liderada pelo arqueólogo Rick Schulting, da Universidade de Oxford. O que encontraram foi um cenário de massacre: corpos despedaçados, marcas de cortes profundos e fraturas brutais, indicando que essas pessoas não morreram em combate, mas foram surpreendidas por seus algozes.

A pesquisa sugere que a violência não se limitou ao ato de matar. As marcas de desmembramento indicam que o objetivo dos assassinos era humilhar e desumanizar as vítimas. De acordo com os cientistas, os ossos humanos estavam misturados a restos de animais, como se as pessoas fossem tratadas da mesma maneira que gado abatido. Embora o consumo de carne humana seja evidente, os pesquisadores descartam a hipótese de que isso tenha ocorrido por necessidade alimentar, já que o local apresentava fartura de alimentos, conforme os vestígios de ossos de gado indicam.

O que vemos em Charterhouse Warren é um lembrete de que a violência extrema não é um fenômeno exclusivo dos tempos modernos”, afirmou Rick Schulting.

Essas atrocidades aconteceram em um período em que as sociedades humanas ainda estavam se formando, o que desafia nossa percepção de civilização e humanidade nas primeiras comunidades europeias.

Embora o canibalismo tenha sido praticado em algumas culturas como ritual funerário, o contexto encontrado nesse sítio arqueológico sugere um propósito diferente. As evidências apontam para o uso do desmembramento como uma ferramenta de terror e desumanização, uma forma de reforçar a superioridade dos agressores sobre seus inimigos.

Não estamos falando de um ritual simbólico, mas de uma demonstração de poder brutal, disse Schulting.

O estudo reforça a complexidade das relações humanas na Idade do Bronze e levanta questões sobre o que motivou tamanha violência. Charterhouse Warren pode ter sido palco de um ataque motivado por rivalidades entre grupos, disputas territoriais ou conflitos culturais. Ainda assim, o massacre parece ter sido cuidadosamente planejado, com o objetivo de extinguir completamente uma comunidade.

Crânios de vítimas do massacre / Imagem: Schulting et al

Os pesquisadores acreditam que o massacre de Charterhouse Warren não foi um evento isolado. Schulting ressalta que o estudo desse episódio traz uma nova perspectiva sobre o passado e ajuda a entender como a violência foi parte integrante das dinâmicas sociais em diferentes épocas da história humana.

“Há uma tendência de romantizar o passado e imaginar que as sociedades antigas viviam em harmonia com a natureza e entre si. Charterhouse Warren nos mostra que isso está longe de ser verdade”, afirmou o arqueólogo. Para ele, o sítio é uma prova de que o ser humano é capaz de atos extremos de crueldade desde tempos imemoriais.

Embora traga respostas sobre o que aconteceu naquele distante poço britânico, o estudo também deixa questões em aberto. Quem foram os agressores? O que motivou tamanha brutalidade? E quantos outros massacres como esse podem estar escondidos sob a terra, esperando para serem descobertos?