Estudo da OMS traz resposta definitiva: o uso de celulares causa câncer no cérebro?
Por Sandro Felix
Publicado em 04/09/24 às 15:56
A relação entre o uso de telefones celulares e o risco de desenvolvimento de câncer no cérebro tem sido debatida há décadas. Contudo, um novo estudo abrangente da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgado recentemente, promete encerrar essa questão de uma vez por todas.
Desde 1993, quando David Reynard, da Flórida, processou a NEC America alegando que a radiação emitida pelo celular de sua esposa teria contribuído para o câncer que a levou à morte, a possível ligação entre o uso de celulares e o câncer começou a gerar preocupações no público. Apesar de o processo ter sido arquivado em 1995, a ideia de que os celulares poderiam causar câncer permaneceu no imaginário popular por anos.
Em 2011, essas preocupações ganharam força quando a Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (IARC), ligada à OMS, classificou a radiação emitida por celulares como um possível agente cancerígeno para humanos. Estudos adicionais, como o realizado em 2016 com roedores, sugeriram que a radiação emitida pelos dispositivos poderia estar ligada ao desenvolvimento de tumores em cérebros e glândulas adrenais de ratos e camundongos.
O Estudo que pode encerrar o debate
Apesar dessas preocupações, a conexão entre a radiação dos celulares e o câncer sempre foi considerada incerta. Agora, um estudo liderado pela Agência Australiana de Proteção contra Radiação e Segurança Nuclear (ARPANSA), em conjunto com a OMS, analisou mais de 5.000 estudos anteriores e selecionou 63 pesquisas publicadas entre 1994 e 2022 para uma análise final. O objetivo era determinar se o aumento do uso de celulares ao longo dos anos poderia estar relacionado a uma maior incidência de cânceres, especialmente no cérebro.
Os resultados foram claros: embora o uso de celulares tenha crescido exponencialmente nas últimas duas décadas, não houve aumento correspondente nos casos de câncer no cérebro ou em outras regiões da cabeça e pescoço. Mesmo entre aqueles que utilizam celulares intensivamente por mais de 10 anos, não foi observada uma relação direta entre a radiação emitida pelos aparelhos e o desenvolvimento de tumores.
Além disso, o estudo também investigou a exposição às ondas de rádio emitidas por torres de celulares e em ambientes ocupacionais, onde as pessoas estão sujeitas a níveis mais altos de radiação de frequência de rádio. Em nenhum desses casos foi encontrado um aumento significativo no risco de câncer.
Mark Elwood, professor honorário de Epidemiologia do Câncer na Universidade de Auckland e coautor do estudo, explicou que a radiação de radiofrequência (RF) abrange uma faixa de energia eletromagnética que inclui desde 300 Hz até 300 GHz, o que corresponde a uma frequência e energia mais baixas do que a luz visível. “As radiofrequências são usadas em celulares, rádios e televisores, além de monitores de bebês, conexões Wi-Fi e até em usos industriais e médicos. Este estudo revisou e combinou análises de diferentes pesquisas para avaliar se essas frequências aumentam o risco de câncer em humanos, e a resposta é negativa.”
Conclusão apoiada por dados globais
Os achados do estudo fazem sentido, especialmente quando se considera o uso massivo de celulares ao redor do mundo. Pesquisas recentes apontam que o uso de smartphones nos Estados Unidos, por exemplo, chega a uma média de quatro horas e 37 minutos por dia. Cerca de três quartos da população mundial agora utiliza esses dispositivos diariamente. Se a radiação emitida por celulares fosse de fato cancerígena, seria esperado um aumento acentuado nos casos de câncer cerebral, o que não ocorreu. Pelo contrário, as taxas de câncer no cérebro permaneceram estáveis desde 1982, segundo os pesquisadores.
Ken Karipidis, da ARPANSA, destacou que, em 2011, a IARC classificou as ondas de rádio como um possível agente cancerígeno com base em evidências limitadas de estudos observacionais em humanos. “Esta revisão sistemática inclui um banco de dados muito maior e mais recente, o que nos dá mais confiança em concluir que a exposição às ondas de rádio provenientes de tecnologias sem fio não representa um risco à saúde humana.”
O estudo completo foi publicado na prestigiada revista Environmental International e é considerado um dos mais robustos já realizados sobre o tema. Para muitos especialistas, este novo conjunto de evidências finalmente resolve o debate sobre o risco de câncer associado ao uso de celulares.