Trump envia um terço da Marinha dos EUA para o Irã e reacende o fantasma de outra guerra
Por Sandro Felix
Publicado em 18/02/26 às 16:11
Sem necessidade de anúncio formal ou coletiva de imprensa, o movimento recente da Marinha dos Estados Unidos no Golfo Pérsico tornou-se evidente a partir da análise de mapas de rastreamento naval e dados de fontes abertas. A concentração de meios militares na região, próxima ao Irã, recoloca o estreito de Ormuz no centro da tensão geopolítica global e reacende o debate sobre o risco de um novo conflito de grandes proporções no Oriente Médio.
Levantamentos realizados por plataformas especializadas em monitoramento marítimo indicam que Washington deslocou uma parcela significativa de sua frota para a área de responsabilidade do Comando Central. A movimentação inclui grupos de porta-aviões, cruzadores, destróieres e submarinos, compondo uma força capaz de sustentar operações prolongadas. Analistas avaliam que, quando porta-aviões passam a operar simultaneamente em uma mesma zona sensível, a mensagem ultrapassa o simbolismo diplomático.
No fim de janeiro, o porta-aviões USS Abraham Lincoln já realizava operações no Golfo, acompanhado por navios de escolta e unidades submarinas. Em 13 de fevereiro, o Pentágono confirmou que o USS Gerald R. Ford, também de propulsão nuclear, seguia para o mesmo teatro de operações. A presença simultânea de dois super porta-aviões representa uma infraestrutura de combate móvel com capacidade para lançar dezenas de aeronaves por dia, além de contar com suporte de inteligência, guerra eletrônica e reabastecimento em alto-mar.
O cenário geográfico amplia a dimensão estratégica da manobra. O estreito de Ormuz, corredor marítimo que liga o Golfo Pérsico ao mar de Omã, é responsável pelo trânsito de cerca de 20% do petróleo consumido no mundo. Trata-se de um dos principais gargalos energéticos do planeta. Especialistas apontam que qualquer incidente na área — seja o disparo de um míssil antinavio, a detonação de uma mina marítima ou o ataque a um petroleiro — teria potencial para provocar alta imediata nos preços do petróleo, pressionar índices de inflação e gerar instabilidade nos mercados internacionais.
A comparação com momentos anteriores é inevitável. Em 1991, na Guerra do Golfo, e em 2003, na invasão do Iraque, a concentração naval precedeu campanhas aéreas intensas e o lançamento em larga escala de mísseis de cruzeiro. A estratégia de projeção de poder a partir do mar, com ataques graduais a sistemas de defesa e infraestruturas críticas, foi central nas duas operações. A diferença, segundo analistas ouvidos por centros de estudos estratégicos, é que até o momento não há indícios de uma mobilização terrestre equivalente àquelas ocasiões.
O padrão que se delineia agora sugere a possibilidade de uma campanha aérea e de mísseis sustentada, em vez de uma invasão clássica com tropas em solo. Porta-aviões e submarinos permitem ataques em camadas: primeiro, a neutralização de radares e sistemas antiaéreos; em seguida, o comprometimento de centros de comando e alvos estratégicos. A capacidade de manter operações por semanas indica que Washington mantém aberta a opção militar, ainda que não haja confirmação de decisão política nesse sentido.
No plano político, a movimentação ocorre sob a liderança do presidente Donald Trump, cuja postura em relação ao Irã tem sido marcada por retórica dura e por medidas de pressão econômica. A questão central, para observadores internacionais, não é apenas a capacidade de ataque — amplamente reconhecida —, mas quais seriam os objetivos estratégicos de uma eventual ação e qual o custo político e econômico que os Estados Unidos estariam dispostos a assumir.
Com o estreito de Ormuz funcionando como um ponto de estrangulamento do comércio energético global, qualquer escalada deixaria rapidamente de ser uma crise regional para se transformar em problema de alcance mundial. Até o momento, não há anúncio oficial de ofensiva iminente. Ainda assim, a concentração de forças navais no Golfo Pérsico reativa o espectro de uma nova guerra e coloca mercados, governos e organismos internacionais em estado de alerta.