Esfera misteriosa no mar de Washington era teste de geração de energia oceânica

Publicado em 25/01/26 às 07:14

Uma esfera gigante avistada por dias nas águas do Puget Sound, próximo ao estado de Washington, nos Estados Unidos, alimentou teorias nas redes sociais e comparações com filmes de ficção científica. O objeto misterioso, no entanto, tem origem bem mais concreta: trata-se do Ocean-2, um protótipo de conversor de energia das ondas desenvolvido pela startup Panthalassa, sediada em Portland.

O equipamento integra uma fase experimental que busca responder a uma pergunta antiga e ainda em aberto no setor energético: é possível transformar o movimento constante do oceano em uma fonte limpa, previsível e viável de eletricidade, sem grandes obras em terra e com impacto visual reduzido? Durante cerca de três semanas, o Ocean-2 permaneceu em testes para coletar dados de geração, estabilidade estrutural, comunicação via satélite e operação remota.

Apesar de descrito popularmente como “uma bola”, o artefato tem uma geometria mais complexa. Relatos locais indicam que o dispositivo possui um corpo tubular alongado, rebocado na posição horizontal quando está desligado. No momento de operar, ele se ergue na vertical, deixando a parte esférica visível acima da superfície. O movimento não é acidental: a proposta do projeto é trabalhar em sintonia com o mar, aproveitando o vaivém das ondas em vez de tentar resistir a ele.

A tecnologia empregada se apoia em um conceito conhecido no setor de energia undimotriz, chamado de “overtopping”. Na prática, o movimento das ondas força a água a subir por canais internos até uma área elevada ou contida; depois, esse volume retorna passando por uma turbina, gerando eletricidade. O princípio físico é simples — água sobe, água desce —, mas a engenharia necessária para que o sistema funcione de forma contínua em mar aberto é complexa e custosa.

Esse desafio histórico ajuda a explicar por que a energia das ondas ainda não alcançou escala comercial significativa. O ambiente oceânico impõe corrosão intensa, incrustações biológicas, fadiga estrutural e impactos de tempestades severas. O próprio NREL, referência em pesquisas do setor, costuma comparar a validação de dispositivos no mar a testes mais imprevisíveis do que os realizados no espaço, dada a variabilidade constante das condições oceânicas.

No caso da Panthalassa, as informações divulgadas até agora indicam cautela. A empresa afirma que os testes do Ocean-2 serviram para verificar não apenas a geração de energia, mas também a confiabilidade dos sistemas de controle e comunicação. Em versões anteriores, como o Ocean-1, houve experimentos com produção de hidrogênio verde a bordo por meio de eletrólise, usando a eletricidade gerada pelas ondas. Materiais promocionais citam picos de até 50 quilowatts em condições favoráveis, número que ajuda a dimensionar o potencial, mas que ainda carece de validação independente e de séries longas de dados.

O próximo passo já está definido. O Ocean-2 deve passar por ajustes antes de dar lugar ao Ocean-3, versão planejada para um ciclo de testes de aproximadamente um ano. Se a tecnologia avançar, seu uso inicial dificilmente será o de abastecer grandes centros urbanos. A aposta mais imediata recai sobre aplicações específicas: sensores oceânicos, fazendas de aquicultura, comunidades costeiras isoladas, ilhas dependentes de geradores a diesel e operações no mar que precisam de energia constante quando não há sol ou vento suficientes.

Por enquanto, a esfera que intrigou moradores e internautas permanece como símbolo de um setor que tenta, mais uma vez, domar o potencial energético do oceano — desta vez, deixando que as próprias ondas façam o trabalho.