China recupera áreas desérticas e transforma mais de 6.000 km² em corredores verdes

Publicado em 18/01/26 às 07:12

A recuperação de terras desérticas tornou-se um dos experimentos ambientais mais ambiciosos do século XXI — e nenhum país conduz esse esforço com a escala, a tecnologia e a precisão observadas na China. Em áreas como Kubuqi, Mu Us e Horqin, por décadas dominadas por dunas móveis e ventos carregados de areia, avançam intervenções que combinam engenharia ecológica, materiais biodegradáveis e espécies vegetais adaptadas a condições extremas, capazes de sobreviver com irrigação mínima.

O objetivo vai além do simples plantio de árvores. Trata-se de estabilizar o solo, criar microclimas, reduzir tempestades de poeira e restaurar ciclos hidrológicos. Cada hectare recuperado integra cinturões ecológicos que redesenham o território, transformando regiões hostis em ambientes funcionais e resilientes. Em Kubuqi, mais de 6.000 km² já foram convertidos, segundo dados oficiais, em corredores verdes que ajudam a conter a areia e a viabilizar atividades econômicas de baixo impacto.

A China concentra alguns dos maiores desertos do planeta, entre eles o Taklamakan e o Gobi, que juntos formam um corredor árido de milhares de quilômetros. As condições são severas: dunas que ultrapassam 100 metros de altura, chuvas inferiores a 200 milímetros por ano e variações térmicas que vão de –30 °C no inverno a mais de 40 °C no verão. O avanço da desertificação foi agravado, ao longo do século passado, por sobrepastoreio e desmatamento, com tempestades de poeira que chegaram a atingir o Japão, a Coreia do Sul e até a costa oeste dos Estados Unidos.

Para enfrentar o problema, Pequim lançou programas nacionais de longo prazo, mobilizando universidades, empresas, comunidades locais e engenheiros. A estratégia começa pela contenção da areia com malhas reticuladas feitas de palha ou polímeros biodegradáveis, que reduzem a velocidade do vento e permitem a fixação do solo. Sobre essa base, são introduzidas espécies resistentes à seca — arbustos e árvores capazes de iniciar microecossistemas e aumentar o teor de carbono do solo.

A recuperação inclui ainda “ilhas de vegetação”, plantios distribuídos de forma estratégica para imitar a colonização natural, além de sistemas de irrigação por gotejamento com sensores que controlam o uso de água. Em Kubuqi, essas técnicas ajudaram a diminuir a frequência de tempestades de areia e abriram espaço para agricultura de baixo impacto, turismo ecológico e a instalação de parques solares.

Os efeitos ultrapassam as fronteiras locais. A redução de partículas suspensas melhora a qualidade do ar, eleva a fertilidade do solo e contribui para o sequestro de carbono. Em um cenário global marcado pelo avanço da desertificação, a experiência chinesa desponta como referência e já inspira projetos na África, no Oriente Médio e em outras partes da Ásia — um indicativo de que, com planejamento e tecnologia, até os desertos podem voltar a sustentar vida produtiva.