Emirados Árabes Unidos estão armazenando bilhões de litros de água dessalinizada em aquíferos profundos
Por Sandro Felix
Publicado em 09/01/26 às 16:53
Durante décadas, os Emirados Árabes Unidos foram sinônimo de riqueza escondida sob o deserto. Reservas subterrâneas, túneis reforçados e sistemas de armazenamento profundo moldaram a estratégia energética do país, baseada no petróleo. Agora, essa mesma lógica passa a ser aplicada a um recurso ainda mais sensível em um mundo marcado por escassez: a água potável.
Ao contrário de narrativas simplistas que sugerem a existência de “cavernas naturais cheias de água”, o que está em curso é um projeto de engenharia de grande escala. O país investe no armazenamento planejado de água dessalinizada em aquíferos profundos e em reservatórios construídos abaixo da superfície, integrados à rede urbana de abastecimento. Trata-se de uma política de segurança hídrica nacional.
O modelo adotado é conhecido internacionalmente como Armazenamento e Recuperação de Aquíferos (ASR, na sigla em inglês). Usinas de dessalinização instaladas no litoral produzem água que é injetada em formações geológicas profundas, protegidas por camadas impermeáveis de rocha. Não são rios subterrâneos nem cavernas ocas, mas estruturas naturais porosas capazes de armazenar grandes volumes de água com estabilidade térmica e proteção física. Quando necessário, o recurso é bombeado de volta ao sistema de abastecimento com qualidade controlada.
Além disso, os Emirados constroem reservatórios subterrâneos escavados e revestidos, conectados diretamente à rede de distribuição, em um modelo semelhante ao das reservas estratégicas de petróleo. Em um país onde as temperaturas frequentemente superam os 45 °C, reservatórios a céu aberto sofrem perdas significativas por evaporação, além de riscos de contaminação e exposição a tempestades de areia. O armazenamento subterrâneo reduz esses problemas e oferece maior proteção contra o calor extremo e eventuais ameaças externas.
Na prática, a água deixa de ser tratada apenas como um serviço público e passa a ocupar o status de ativo estratégico. Atualmente, mais de 90% da água potável consumida no país vem da dessalinização. Qualquer interrupção prolongada nas usinas costeiras poderia comprometer o abastecimento urbano. Com as reservas subterrâneas, o governo afirma ser possível manter cidades inteiras abastecidas por semanas.
O sistema nacional envolve dezenas de bilhões de litros de água armazenados no subsolo, monitorados de forma contínua por sensores que acompanham pressão, salinidade, estabilidade geológica e qualidade do recurso. Segundo especialistas, trata-se de um planejamento de longo prazo, conduzido pelo Estado, que busca reduzir vulnerabilidades em um território desértico e sem rios permanentes.
Antes símbolo da era do petróleo, os Emirados Árabes Unidos passam a se apresentar como um laboratório de soluções para a crise global da água. Em um ambiente extremo, o subsolo assume o papel de reservatório vital, a água se torna patrimônio estratégico e a engenharia, instrumento central de sobrevivência.