Será que o aquecimento global pode realmente levar à próxima era glacial?
Por Sandro Felix
Publicado em 26/12/25 às 16:25
O aumento das temperaturas globais provocado pela emissão de gases de efeito estufa pode desencadear consequências climáticas de longo prazo mais complexas do que o simples aquecimento contínuo do planeta. Um estudo conduzido por pesquisadores da University of California, sugere que o aquecimento global pode ativar mecanismos naturais capazes de retirar grandes quantidades de dióxido de carbono (CO₂) da atmosfera, abrindo caminho, em um futuro distante, para um resfriamento global extremo.
A pesquisa, publicada em setembro de 2025 na revista científica Science, revisa o entendimento tradicional sobre o papel dos oceanos e das rochas no controle do clima da Terra. Por décadas, cientistas sustentaram que o planeta possui um sistema de autorregulação relativamente estável, que corrige lentamente variações de temperatura ao longo de milhões de anos. Os autores do novo estudo afirmam, no entanto, que esse equilíbrio pode falhar.
Esse controle climático é geralmente explicado pelo intemperismo das rochas. A chuva absorve CO₂ da atmosfera e, ao escorrer sobre áreas continentais, reage quimicamente com rochas ricas em silicatos, como o granito. O carbono capturado nesse processo é transportado para os oceanos, onde se combina com cálcio e acaba armazenado em sedimentos no fundo do mar por centenas de milhões de anos.
“À medida que o planeta aquece, o desgaste das rochas se intensifica e remove mais CO₂ da atmosfera, ajudando a esfriar o clima”, explica o geólogo Andy Ridgwell, coautor do estudo. Esse mecanismo sempre foi visto como um freio natural às mudanças climáticas.
O registro geológico, porém, revela episódios que desafiam essa visão. Algumas eras glaciais do passado foram tão intensas que geleiras avançaram sobre regiões tropicais, algo difícil de explicar apenas com ajustes climáticos graduais.
Para compreender esses extremos, os pesquisadores identificaram um processo adicional ligado aos oceanos. Com o aquecimento global, o aumento das chuvas intensifica o transporte de nutrientes, como o fósforo, dos continentes para o mar. Esse aporte favorece o crescimento do plâncton, organismos microscópicos que absorvem CO₂ durante a fotossíntese.
Quando o plâncton morre, afunda e leva o carbono acumulado para os sedimentos oceânicos. O problema surge quando a decomposição da matéria orgânica reduz os níveis de oxigênio na água. Em ambientes com pouco oxigênio, o fósforo tende a ser liberado novamente, alimentando novos ciclos de proliferação do plâncton.
Esse processo cria uma retroalimentação que pode acelerar a remoção de carbono da atmosfera. Em simulações computacionais, os cientistas observaram que esse mecanismo foi capaz de provocar quedas acentuadas nos níveis de CO₂ e um resfriamento global suficiente para iniciar uma era glacial.
Ridgwell compara o fenômeno a um sistema de climatização que reage com atraso.
O controle climático da Terra não está quebrado, mas pode responder de forma irregular, ultrapassando o ponto de equilíbrio, afirma.
O estudo também explica por que as eras glaciais mais antigas foram particularmente severas. No passado remoto, os níveis de oxigênio na atmosfera eram muito mais baixos, tornando esse ciclo oceânico mais instável. Hoje, com concentrações mais altas de oxigênio, esse efeito tende a ser menos intenso.
Mesmo assim, os modelos indicam que o resfriamento de longo prazo pode ocorrer mais cedo do que se pensava, antecipando o início da próxima era do gelo em dezenas ou até centenas de milhares de anos.
Os autores destacam que essa perspectiva não reduz a urgência do combate ao aquecimento global atual. A eventual volta do frio ocorreria em uma escala de tempo muito superior à da crise climática enfrentada hoje. “Independentemente de quando a próxima era do gelo possa começar, isso não muda o fato de que o aquecimento em curso terá impactos profundos e imediatos sobre a sociedade humana”, conclui Ridgwell.