Como duas pequenas esferas de metal revelaram o peso da Terra em 1797
Por Sandro Felix
Publicado em 30/11/25 às 07:00
Pesar um planeta parece uma tarefa impossível. Afinal, como medir algo sobre o qual estamos em pé? Essa foi uma questão que intrigou cientistas por séculos — e cuja resposta exigiu tanto genialidade quanto paciência. A história de como a humanidade descobriu a massa da Terra começa no século XVII, com ninguém menos que Isaac Newton.
Em 1687, Newton publicou sua famosa lei da gravitação universal, segundo a qual todas as partículas do universo se atraem com uma força proporcional ao produto de suas massas e inversamente proporcional ao quadrado da distância que as separa. Em termos matemáticos:
F = G × (M₁ × M₂) / D².
A fórmula permitia, em teoria, calcular a massa de qualquer corpo — inclusive a da Terra —, desde que se conhecesse o valor da constante G, que representa a força da gravidade entre dois objetos. O problema é que, na época, G ainda era um mistério. Newton acreditava que seria impossível medir a força da gravidade entre objetos muito pequenos — apenas corpos gigantes, como planetas e luas, exerceriam uma atração mensurável.
Mesmo assim, a curiosidade científica persistiu. Saber a densidade média da Terra era fundamental para astrônomos e físicos, pois permitiria calcular a massa de outros planetas e compreender melhor o equilíbrio do Sistema Solar. Em 1772, a Royal Society de Londres criou o chamado “Comitê de Atração”, encarregado de resolver o problema.
Uma das primeiras tentativas práticas veio da Escócia. Pesquisadores decidiram usar o Monte Schiehallion, cuja forma simétrica ajudava nos cálculos. Eles perceberam que o próprio monte desviava levemente o pêndulo usado em medições, devido à sua massa. A partir desse pequeno desvio e de levantamentos topográficos precisos, conseguiram estimar, ainda que de maneira aproximada, a densidade da Terra. Foi um passo importante, mas ainda longe da precisão necessária.
A virada definitiva ocorreu em 1797, mais de cem anos após Newton. O responsável foi o cientista inglês Henry Cavendish, que deu continuidade ao trabalho iniciado pelo geólogo John Michell, falecido antes de concluir o experimento. Usando o equipamento projetado por Michell, Cavendish realizou o que ficaria conhecido como “Experimento de Cavendish” — uma das maiores façanhas científicas do século XVIII.
O aparato era engenhoso e relativamente simples: duas esferas metálicas grandes e duas pequenas, suspensas por um fio extremamente fino. A atração gravitacional entre as esferas fazia o fio torcer levemente, e, ao medir essa torção, Cavendish conseguiu determinar a força entre os corpos e, finalmente, o valor da constante G.
Com isso, foi possível calcular a massa total da Terra, estimada em cerca de 5,97 × 10²⁴ quilogramas — ou aproximadamente 5,97 septilhões de quilos. Esse valor impressionante marcou a primeira vez que a humanidade conseguiu medir com precisão a massa do próprio planeta.
O feito de Cavendish foi considerado um marco da física moderna. Pela primeira vez, o ser humano conseguiu medir a força invisível que une tudo no universo — e, com ela, pesar o próprio planeta. O resultado não apenas confirmou as previsões de Newton, mas também abriu caminho para o cálculo da massa de outros corpos celestes, ajudando a consolidar a física gravitacional.
Mais de dois séculos depois, os princípios descobertos por Newton e Cavendish continuam sendo a base de muitas tecnologias e pesquisas científicas — dos satélites que orbitam a Terra às missões espaciais que exploram o Sistema Solar. Pesar o planeta, afinal, foi mais do que um exercício de física: foi um ato de descoberta sobre o nosso lugar no Universo.