15 anos após Fukushima, Japão retoma operação da maior usina nuclear do mundo e reacende debate sobre risco atômico

Publicado em 25/11/25 às 16:44

Quinze anos depois do desastre de Fukushima, o Japão se prepara para religar aquele que ainda é considerado o maior complexo nuclear do mundo. A decisão do governador da província de Niigata, Hideyo Hanazumi, de autorizar a reativação gradual da usina de Kashiwazaki-Kariwa, recolocou no centro do debate nacional uma questão que muitos imaginavam superada: até que ponto o país está disposto a assumir novamente o risco atômico em troca de energia mais barata, menor emissão de carbono e redução da dependência de combustíveis fósseis.

Usina de Kashiwazaki-Kariwa / Imagem: Reprodução

Operada pela Tokyo Electric Power Company (Tepco), a usina está desligada desde 2012, no auge da comoção causada pelo tsunami de 2011 e pelas fusões nos três reatores de Fukushima. Com sete unidades e mais de 8.000 megawatts instalados, Kashiwazaki-Kariwa supera em potência qualquer outra instalação nuclear do planeta. O plano aprovado pelo governo local prevê o religamento inicial do reator 6 — considerado um dos mais modernos do complexo — seguido, em uma segunda etapa, pelo reator 7. Para Tóquio, a retomada é peça central da estratégia para conter tarifas elétricas em disparada desde a invasão russa da Ucrânia e fortalecer o abastecimento energético interno com uma matriz mais limpa em um país que importa quase todo o gás e o petróleo que consome.

A reativação, porém, está longe de ser apenas um gesto simbólico. O megacomplexo passou a última década entre obras, auditorias e sucessivos entraves regulatórios. Embora tenha superado as rigorosas revisões de segurança estabelecidas no pós-Fukushima, a Autoridade de Regulação Nuclear chegou a suspender sua operação após detectar falhas graves nas medidas antiterrorismo e em controles internos — de portas mal protegidas a problemas nas credenciais de acesso dos funcionários. Pressionada, a Tepco instalou sistemas biométricos, reforçou protocolos de vigilância e atualizou planos de evacuação. Só depois dessas mudanças os reguladores suspenderam o veto e o governador considerou seguro autorizar o reinício.

Em Niigata, a decisão reacendeu divisões profundas. Pesquisas de opinião mostram uma população praticamente dividida ao meio entre defensores e críticos do retorno da usina, alimentando um sentimento adicional de injustiça: a eletricidade gerada seguirá em direção à região de Tóquio, enquanto o risco de um possível acidente recairá sobre as comunidades costeiras dentro do raio de 30 quilômetros da planta. Para muitos moradores, o debate não se limita aos aspectos técnicos de segurança, mas à confiança — ou falta dela — de que a Tepco, responsável pelo desastre de Fukushima, tenha de fato mudado o suficiente para administrar novamente a maior usina nuclear do mundo.

A reabertura também reflete uma mudança mais ampla na política energética japonesa. Antes de 2011, cerca de um terço da eletricidade do país vinha de reatores nucleares. Após o acidente, essa participação despencou praticamente a zero, forçando o Japão a recorrer de forma acelerada ao gás natural liquefeito e ao carvão. Nos últimos anos, uma dúzia de reatores voltou a operar, e o governo espera que, na próxima década, a energia nuclear volte a representar aproximadamente 20% da matriz elétrica nacional. A estratégia prevê tanto a reativação de unidades existentes quanto o investimento em novos reatores de tecnologia avançada.

Usina nuclear de Fukushima pegando fogo após terremoto de 2011. / Imagem: Reprodução

Entre a urgência climática e a volatilidade dos combustíveis fósseis, o átomo deixou de ser tabu para se tornar, na visão de muitos formuladores de políticas, um “mal menor” necessário para garantir segurança energética.

O retorno de Kashiwazaki-Kariwa, portanto, marca não apenas a reaproximação do Japão com a energia nuclear, mas também o reconhecimento de que o país ainda enfrenta dilemas profundos na busca por um equilíbrio entre risco, custo e sustentabilidade — dilemas que, ao que tudo indica, estão longe de chegar ao fim.