Trump encerra, discretamente, o departamento criado para Elon Musk e põe fim ao experimento “DOGE”
Por Sandro Felix
Publicado em 24/11/25 às 16:52
O governo de Donald Trump confirmou, de forma quase silenciosa, o fim de um dos projetos mais polêmicos e simbólicos de seu retorno à Casa Branca: o Departamento de Eficiência Governamental (DOGE), entregue ao bilionário Elon Musk no início do mandato com a promessa de aplicar a lógica de Silicon Valley à máquina pública norte-americana. Um ano após seu lançamento, o órgão foi oficialmente desativado, segundo confirmou Scott Kupor, diretor do Escritório de Gestão de Pessoal (OPM), que agora reassume as funções que estavam sob responsabilidade do departamento.
O DOGE foi criado como a grande vitrine de modernização do Estado — um projeto que, nas palavras de Trump, serviria para “enxugar a burocracia e tornar o governo tão ágil quanto uma startup”. Sob o comando de Musk e com o apoio do então candidato republicano Vivek Ramaswamy, o departamento rapidamente se transformou em um laboratório de reformas administrativas de alto impacto, mas também em um símbolo de opacidade e controvérsia.
O anúncio de seu fim, feito sem coletiva e sem comunicado formal, ocorre em meio ao deterioramento acelerado da relação entre Trump e Musk, que havia sido um dos pilares da campanha presidencial de 2024. O empresário da Tesla e da SpaceX apoiou abertamente o republicano, investindo, segundo estimativas, mais de 200 milhões de dólares na campanha e utilizando sua plataforma X (antigo Twitter) para amplificar mensagens pró-Trump e atacar adversários.
Em troca, Musk ganhou um espaço sem precedentes para um empresário privado: um departamento próprio dentro do organograma federal. Mas o “romance político” começou a ruir quando o bilionário se distanciou publicamente da “Big Beautiful Bill”, o principal pacote econômico da Casa Branca. Trump respondeu de maneira cortante: “Talvez tenha chegado a hora de ele voltar de onde veio”.
Um legado controverso
Na prática, o legado do DOGE é qualquer coisa menos transparente. O órgão iniciou suas atividades prometendo uma “reforma estrutural em larga escala” que resultou em mais de 200 mil demissões no funcionalismo público e 75 mil desligamentos voluntários incentivados, além de cortes orçamentários abruptos em diversas agências.
Apesar de prometer bilhões em economia para os cofres públicos, o departamento nunca apresentou auditorias independentes nem relatórios detalhados que comprovassem esses resultados. Investigações de veículos como Reuters e The Guardian apontaram um padrão de decisões sem rastreabilidade, reestruturações-relâmpago e uma cadeia de comando concentrada em Musk e em um grupo restrito de assessores.
Fontes ouvidas por esses veículos descrevem um clima de desmobilização progressiva desde o início do verão americano: servidores empacotando seus pertences e esvaziando escritórios enquanto Musk reduzia suas visitas a Washington. Entre ex-integrantes do DOGE, crescia o temor de que investigações futuras pudessem expor irregularidades em contratos rescindidos, metas infladas e cortes sem base documental.
Diante do cenário, a Casa Branca optou por absorver novamente as atribuições do departamento, redistribuindo-as entre o OPM e outras agências. A decisão encerra, ao menos formalmente, o ciclo de experimentos administrativos inspirados em modelos de gestão privada.
O que sobra do “espírito Musk”
Mesmo dissolvido, o ecossistema que se formou em torno do DOGE não desapareceu completamente. Diversos ex-integrantes foram realocados em cargos estratégicos da administração federal. Amy Gleason, por exemplo, passou a atuar como assessora na área de Saúde; Zachary Terrell assumiu o cargo de diretor de tecnologia (CTO) no mesmo setor; e Rachel Riley agora lidera programas de pesquisa naval.
O caso mais simbólico é o de Joe Gebbia, cofundador do Airbnb, que foi nomeado “arquiteto de estética digital” do governo — função que envolve o redesenho de portais oficiais, desde páginas de recrutamento policial até campanhas sobre o novo plano de preços farmacêuticos. O movimento sugere que, embora o DOGE tenha sido enterrado, a cultura de design e eficiência de produto trazida por Musk deixou marcas na burocracia federal.
Nos bastidores, auxiliares de Trump tentam minimizar o encerramento do órgão, descrevendo-o como uma “reorganização administrativa natural”. Ainda assim, para analistas políticos em Washington, a dissolução do DOGE representa o fim simbólico da aliança entre o populismo trumpista e o tecnocratismo de Silicon Valley, uma relação que começou com promessas de revolução e terminou em silêncio administrativo.
A experiência do DOGE deixa uma lição amarga para a Casa Branca: a lógica de startups nem sempre se encaixa na engrenagem do setor público. Enquanto Musk volta a se concentrar em seus negócios — entre eles, o ambicioso projeto de colonização de Marte —, Trump tenta reorientar sua agenda econômica para os próximos anos, agora sem o brilho tecnológico que marcou o início de seu segundo mandato.
Com o DOGE fora de cena, a Casa Branca busca reconstruir uma estrutura de gestão mais previsível, ainda que menos espetacular. O “governo como empresa”, que prometia eficiência e inovação, termina como um capítulo curioso e controverso na história recente da administração americana.