O sonho futurista de “The Line” encolhe: megaprojeto saudita de 170 km se reduz a apenas 2,4 km e coloca em dúvida o futuro da cidade do deserto

Publicado em 15/11/25 às 07:13

O que há quase uma década foi apresentado como o símbolo máximo do futurismo saudita está agora à beira do colapso. Em 2017, a Arábia Saudita surpreendeu o mundo ao anunciar “The Line”, uma cidade linear de 170 quilômetros planejada para erguer-se no meio do deserto. O projeto, parte da ambiciosa iniciativa Neom, prometia reinventar a vida urbana: uma metrópole sem carros, movida a energia limpa, abrigada em um único arranha-céu espelhado de 500 metros de altura e capaz de receber até 1,5 milhão de habitantes. O objetivo era ousado — inaugurar a cidade até 2030, bem a tempo da Copa do Mundo de 2034, transformando o país em um novo epicentro de inovação e luxo.

No entanto, o que deveria ser um marco histórico do urbanismo futurista se transformou em uma realidade muito mais modesta. De acordo com informações do Financial Times, apenas 2,4 quilômetros dos 170 previstos foram efetivamente construídos, e a capacidade populacional foi reduzida para cerca de 300 mil habitantes — uma fração mínima do que fora anunciado. O corte drástico nos planos alimenta dúvidas sobre a viabilidade econômica e técnica do projeto, que já vinha sendo alvo de críticas e questionamentos há meses.

Fontes próximas ao projeto indicam que o fundo soberano saudita (PIF), principal responsável pelo financiamento de The Line, estaria redirecionando recursos para investimentos mais estáveis diante dos crescentes custos e incertezas. Embora as autoridades não tenham confirmado oficialmente cortes ou cancelamentos, os prazos se tornaram cada vez mais vagos, e o discurso de progresso constante deu lugar a um silêncio cauteloso.

A conjuntura econômica global também mudou. The Line nasceu em um período de alta do petróleo, quando a Arábia Saudita aproveitava os preços favoráveis do barril para financiar seus planos de diversificação econômica. Hoje, com um cenário mais prudente e a necessidade de conter gastos, as tesouras começaram a agir. O resultado é uma obra monumental que avança a passos lentos, enquanto os investidores, antes entusiasmados, começam a recuar diante das incertezas.

The Line, a cidade vertical, sem ruas ou carros, que pretendia comportar 9 milhões de habitantes — Imagem: Divulgação/NEOM

Além das dificuldades financeiras e técnicas, o projeto acumula polêmicas sociais e ambientais. Organizações de direitos humanos denunciam o deslocamento forçado de comunidades tribais que habitavam a região destinada à construção da cidade, enquanto grupos ambientalistas alertam para o impacto ecológico de uma estrutura espelhada gigante no meio de rotas migratórias de aves. Há ainda relatos de más condições de trabalho e repressão política, fatores que mancham a imagem internacional do reino.

Imagens de satélites mostram parte das fundações do The Line cobertos pela areia do deserto / Imagem: Reprodução

As imagens de satélite confirmam o que muitos já suspeitavam: as obras estão praticamente paradas. As estruturas iniciais da fundação de The Line — que deveriam ser apenas o começo de uma linha interminável no deserto — começam a ser cobertas pela areia. Apesar das promessas oficiais de continuidade, os sinais de estagnação são visíveis e crescentes.

Especialistas em urbanismo e economia avaliam que o projeto, pensado como um ícone do século XXI, pode acabar se tornando um símbolo do excesso e da desmesura. “As datas não se cumpriram, o orçamento foi drasticamente reduzido e as controvérsias continuam se acumulando”, resume um analista ouvido pelo Financial Times.

Assim, o que começou como uma visão grandiosa de um futuro sustentável e tecnológico se transforma, cada vez mais, em um retrato da complexidade de equilibrar ambição e realidade. A megacidade que deveria redefinir o urbanismo moderno parece, por ora, afundar-se nas próprias dunas que a cercam.