Cientistas ficam perplexos com a descoberta de que o cometa 3I/ATLAS vem da mesma região do misterioso sinal WOW!
Por Sandro Felix
Publicado em 31/10/25 às 16:51
Quase meio século depois de sua descoberta, o misterioso sinal WOW! volta a despertar o interesse da comunidade científica. Registrado em agosto de 1977 pelo radiotelescópio Big Ear, da Universidade Estadual de Ohio, nos Estados Unidos, o sinal teve duração de apenas 72 segundos e nunca mais foi detectado. A emissão ocorreu na frequência de 1420 megahertz, associada ao hidrogênio, uma faixa que os astrônomos costumam reservar para observações cósmicas, o que a torna ainda mais intrigante. Naquele dia, o astrônomo Jerry Ehman, responsável pela análise dos dados, escreveu à mão a palavra “WOW!” ao lado do registro impresso, ciente de que estava diante de algo incomum. Ainda assim, foi prudente: nunca afirmou que se tratava de uma transmissão extraterrestre, mas também não pôde descartar completamente essa possibilidade.
Desde então, o chamado “sinal WOW!” tornou-se um dos maiores enigmas da radioastronomia. Agora, quase 50 anos depois, o assunto voltou às manchetes com a descoberta do cometa 3I/ATLAS, um corpo interestelar detectado em julho de 2025 cuja trajetória passa pela mesma região geral da constelação de Sagitário, de onde a antiga emissão foi captada. O astrofísico Avi Loeb, da Universidade de Harvard, calculou que a probabilidade de essa coincidência ser puramente aleatória é de cerca de 0,6%, segundo estimativas preliminares. Embora Loeb não afirme que o cometa tenha emitido o sinal, ele defende que a coincidência merece investigação detalhada e propõe a realização de novas campanhas de observação coordenadas entre radiotelescópios e sondas espaciais.
A proposta, porém, não é unânime. Muitos astrônomos consideram improvável que um cometa seja capaz de produzir um sinal de rádio tão intenso e preciso. Em geral, esses corpos celestes emitem ondas fracas, resultantes de reações químicas em sua coma — a nuvem de gás e poeira que os envolve —, mas não há mecanismo natural conhecido capaz de gerar uma emissão estreita e coerente como a WOW!. As observações recentes do 3I/ATLAS tampouco detectaram qualquer tipo de radiação eletromagnética artificial associada ao objeto. O que se observou, até agora, foi apenas um jato de gás e poeira direcionado ao Sol, fenômeno comum em cometas ativos e explicado pela sublimação de gelo em regiões específicas da superfície.
Nas redes sociais, circularam rumores e interpretações exageradas sobre o cometa, incluindo alegações de que ele conteria ligas metálicas industriais, exibiria aceleração inexplicável ou possuiria uma “anti cauda anômala”. Cientistas, porém, esclarecem que nada disso indica comportamento artificial. A chamada anti cauda é um fenômeno óptico bem conhecido, causado pela reflexão da luz solar em partículas finas alinhadas com a órbita do cometa. Já a aceleração não gravitacional é algo normal em cometas ativos, impulsionados por jatos de gás. Tanto a NASA quanto a Agência Espacial Europeia (ESA) foram categóricas ao afirmar que não há qualquer evidência de tecnologia ou engenharia artificial em 3I/ATLAS.
O que realmente fascina os pesquisadores é o fato de o cometa ser um visitante interestelar, vindo de fora do Sistema Solar. Estima-se que ele tenha bilhões de anos, talvez mais antigo que o próprio Sol, o que o transforma em uma espécie de cápsula do tempo cósmica. Segundo Davide Farnocchia, do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) da NASA, objetos como esse são fragmentos antigos que viajam por milênios pelo espaço e oferecem aos cientistas uma oportunidade única de estudar a composição e o comportamento de corpos formados em outros sistemas estelares. Mesmo sem qualquer relação comprovada com o sinal WOW!, o 3I/ATLAS tem um valor científico inestimável.
Por enquanto, a comunidade científica mantém uma posição cautelosa. A coincidência entre a trajetória do cometa e a região celeste do antigo sinal não prova que haja uma relação entre eles, mas serve de estímulo para novas observações. Caso uma emissão semelhante volte a ser registrada, mesmo que fraca, isso representaria um marco histórico para a astronomia. Caso contrário, a WOW! continuará sendo o que sempre foi: um mistério fascinante, sem explicação definitiva, mas também sem ser esquecido.