Telescópio James Webb encontra indícios dos blocos da vida em galáxia a 160 mil anos-luz da Terra
Por Sandro Felix
Publicado em 29/10/25 às 16:30
Pesquisadores utilizando o Telescópio Espacial James Webb (JWST) identificaram pela primeira vez cinco compostos ricos em carbono ao redor de uma estrela em formação localizada na Grande Nuvem de Magalhães (GNM) — uma galáxia anã que orbita a Via Láctea a cerca de 160 mil anos-luz da Terra. A descoberta pode ajudar a compreender como os blocos fundamentais da vida se formaram no início do Universo.
A GNM, que faz parte do Grupo Local de galáxias — o mesmo que inclui a Via Láctea — é um ambiente extremo, banhado por radiação ultravioleta intensa emitida por estrelas jovens e quentes. Além disso, possui baixa concentração de elementos pesados, como carbono, nitrogênio e oxigênio, o que a torna um laboratório natural para estudar condições semelhantes às do Universo primitivo.
Estudar a Grande Nuvem de Magalhães nos permite investigar a química em ambientes primitivos, onde há poucos elementos pesados essenciais para a vida, explicou Marta Sewilo, astrônoma da Universidade de Maryland e do Centro de Voos Espaciais Goddard da NASA, coautora do estudo.
É como abrir uma janela para galáxias antigas e distantes.
Em março de 2024, o James Webb direcionou seu olhar infravermelho para o objeto ST6, uma protoestrela — estágio inicial da formação estelar —, e detectou uma combinação inédita de moléculas presas em seu envoltório gelado: metanol, acetaldeído, etanol, formiato de metila e ácido acético — este último, responsável pelo odor característico do vinagre.
Até então, apenas o metanol havia sido confirmado em gelos interestelares em regiões de formação estelar fora da Terra. A presença de ácido acético marca a primeira detecção definitiva dessa substância no espaço.
Antes do Webb, o metanol era o único composto orgânico complexo que havíamos conseguido identificar nesses gelos, mesmo dentro da Via Láctea, afirmou Sewilo.
Esses novos espectros trazem mais informações em uma única observação do que qualquer instrumento anterior conseguiu reunir.
Além dos cinco compostos confirmados, os cientistas também observaram sinais promissores de glicolaldeído, uma molécula considerada precursora da ribose — o açúcar que forma a espinha dorsal do RNA, molécula essencial para a vida como conhecemos. A confirmação dessa detecção, no entanto, ainda depende de análises adicionais.
Os resultados sugerem que grãos de poeira cósmica podem servir como catalisadores de reações químicas complexas, mesmo em regiões com poucos metais — um cenário que reflete o ambiente do Universo primitivo, quando os primeiros sistemas estelares estavam se formando.
A equipe planeja agora buscar compostos semelhantes em outras protoestrelas, tanto na Via Láctea quanto em galáxias vizinhas, para comparar como essas moléculas se formam sob diferentes condições químicas.
Essa descoberta muda nossa compreensão sobre a química cósmica e abre caminhos ousados para desvendar a origem da vida no Universo, concluiu Sewilo.