Cometa interestelar 3I/ATLAS se aproxima do Sol e reacende debate sobre possível “nave-mãe alienígena”

Publicado em 23/10/25 às 16:43

Astrônomos de todo o mundo voltam suas atenções mais uma vez para o cometa interestelar 3I/ATLAS, que neste mês de outubro chega ao ponto mais próximo do Sol, conhecido como periélio. Descoberto em 1º de julho por pesquisadores do sistema ATLAS (Asteroid Terrestrial-impact Last Alert System), o objeto é o terceiro corpo confirmado vindo de fora do Sistema Solar, depois de ‘Oumuamua e Borisov.

A trajetória do 3I/ATLAS é incomum: ele entrou no Sistema Solar, fará uma passagem próxima ao Sol e depois seguirá novamente rumo ao espaço interestelar. Desde sua descoberta, o cometa tem intrigado os cientistas por apresentar características químicas e polarização atípicas, além de exibir uma “cauda invertida” — fenômeno raro, mas real, e não uma ilusão de ótica.

No entanto, neste momento crucial, o cometa está atrás do Sol, em conjunção solar, o que impede sua observação direta por telescópios na Terra. A partir da órbita de Marte e, possivelmente, da órbita de Júpiter, sondas espaciais tentam registrar dados sobre o comportamento do objeto enquanto ele passa pelo ponto mais quente e ativo de sua jornada.

Cometa interestelar 3I/ATLAS visto através de telescópios / Imagem: ESA

O que acontece durante o periélio?

Quando um cometa se aproxima do Sol, o aumento da temperatura faz com que gases e poeira sejam liberados de sua superfície, processo conhecido como outgassing. O 3I/ATLAS começou a apresentar essa atividade mesmo estando a 6,4 unidades astronômicas (UA) de distância — cada UA corresponde à distância média entre a Terra e o Sol, cerca de 150 milhões de quilômetros.

Observar o cometa no periélio poderia fornecer pistas valiosas sobre sua composição original e ambiente de origem, ajudando os cientistas a entender melhor como corpos interestelares se formam em outros sistemas planetários. Infelizmente, a conjunção solar torna essa observação impossível até o fim de outubro.

A polêmica da “nave-mãe alienígena”

Entre os nomes que reacenderam o debate sobre o 3I/ATLAS está o professor de astronomia de Harvard, Avi Loeb, conhecido por suas ideias controversas sobre vida extraterrestre. Loeb ganhou notoriedade em 2017 ao propor que o objeto ‘Oumuamua poderia ser uma sonda alienígena, e agora volta a sugerir que o novo visitante interestelar pode não ser totalmente natural.

Em entrevista recente, Loeb chegou a dizer:

Se quiser tirar férias, faça isso antes de 29 de outubro, porque quem sabe o que vai acontecer?

Segundo ele, há uma chance de 30% a 40% de que o 3I/ATLAS tenha uma origem artificial, hipótese que incluiria a possibilidade de uma manobra de Oberth — técnica em que uma nave utiliza a gravidade do Sol para aumentar sua velocidade.

Loeb especula que, se o cometa fosse de fato uma “nave-mãe alienígena”, poderia lançar mini-sondas enquanto está fora do campo de visão terrestre, usando a gravidade solar para alterar sua trajetória e até mesmo se aproximar da Terra nos meses seguintes.

O cenário mais provável, do ponto de vista de engenharia, envolveria uma nave-mãe que libera mini-naves que executam uma manobra reversa para interceptar a Terra, escreveu o professor em seu blog.

A maioria dos cientistas, contudo, rejeita categoricamente a hipótese de que o 3I/ATLAS seja uma nave alienígena. Para Tom Statler, cientista-chefe da NASA para corpos pequenos do Sistema Solar, o comportamento do objeto é “claramente o de um cometa”.

Ele parece um cometa. Faz coisas de cometa. E se comporta como um cometa, disse Statler ao jornal The Guardian.

Tem propriedades interessantes, diferentes dos cometas do nosso Sistema Solar, mas nada que indique algo artificial.

De fato, análises preliminares indicam que o 3I/ATLAS segue o padrão natural de um corpo gelado sendo aquecido pelo Sol, com variações de brilho e perda de massa típicas de cometas.

O teste decisivo: 29 de outubro

O próximo dia 29 de outubro será o momento-chave para testar a hipótese de Loeb. Nesse dia, o cometa atingirá seu periélio e, caso ocorra qualquer mudança inesperada em sua trajetória — como uma aceleração súbita ou desvio anômalo —, seria necessário investigar mais a fundo.

Contudo, o cenário mais provável é que o 3I/ATLAS continue sua viagem para fora do Sistema Solar, gradualmente desaparecendo do alcance dos telescópios à medida que se afasta da luz do Sol.

Mesmo assim, Loeb afirma que o episódio merece atenção:

A possibilidade de uma manobra de Oberth é pequena, mas deve ser levada a sério, pois um evento assim teria implicações enormes para a humanidade.

Enquanto a maioria da comunidade científica vê o 3I/ATLAS como mais um cometa natural com propriedades incomuns, o caso oferece uma oportunidade rara para estudar materiais vindos de outros sistemas estelares — e, ao mesmo tempo, um lembrete de como o fascínio por vida extraterrestre continua a inspirar debates e especulações.

Seja qual for o resultado após o periélio, o objeto voltará a nos lembrar o quão vasto e misterioso é o cosmos — e o quanto ainda temos a aprender sobre o que existe além das fronteiras do nosso Sistema Solar.