Astrônomos confirmam anticauda rara no cometa interestelar 3I/ATLAS
Por Sandro Felix
Publicado em 19/10/25 às 06:49
Astrônomos que analisam o cometa interestelar 3I/ATLAS utilizando o Observatório W. M. Keck, no Havaí, confirmaram a existência de um fenômeno raro no objeto — uma “cauda anti-solar”, voltada em direção ao Sol — e revelaram novos detalhes sobre a composição química desse misterioso visitante de fora do Sistema Solar.
O cometa foi detectado em 1º de julho de 2025 por pesquisadores do sistema Asteroid Terrestrial-impact Last Alert System (ATLAS), no Havaí. Desde então, vem chamando atenção pela velocidade recorde e pela excentricidade orbital — entre 6,1 e 6,2, valores muito acima de 1, o que indica que o objeto não pertence ao nosso Sistema Solar e está apenas de passagem. Trata-se, portanto, do terceiro cometa interestelar já identificado, após ‘Oumuamua (2017) e 2I/Borisov (2019).
Desde sua descoberta, o 3I/ATLAS tem despertado curiosidade entre cientistas e o público. A análise preliminar de sua atividade revelou que ele é um cometa ativo, liberando gases e poeira à medida que se aproxima do Sol — comportamento típico de objetos formados a partir de gelo e material volátil.
Estima-se que o cometa possa ser uma “cápsula do tempo” de até 10 bilhões de anos, formada em uma região distante de outro sistema estelar. Essa antiguidade o torna um alvo valioso para compreender como outros sistemas planetários evoluíram e quais elementos estavam presentes em suas origens.
Descoberta de metais e compostos incomuns
Em um novo estudo, ainda não revisado por pares e publicado no repositório arXiv, uma equipe internacional utilizou o Keck Cosmic Web Imager, acoplado ao telescópio Keck II, para analisar a luz refletida pela coma do cometa — a nuvem de gás e poeira que o envolve.
A análise espectroscópica confirmou a presença de níquel (Ni) e cianeto (CN), já observados anteriormente, mas apontou ausência ou presença muito fraca de ferro (Fe). O mapeamento espacial mostrou que o níquel está concentrado mais próximo do núcleo, enquanto o cianeto se espalha mais amplamente pela coma, indicando diferentes processos de liberação dos elementos.
Segundo os pesquisadores, o níquel pode ser liberado por meio de moléculas intermediárias — como Ni+PAH, combinações entre metais e hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (PAHs) — que se desintegram sob radiação solar, explicando a concentração incomum de níquel.
Outro ponto que intriga os astrônomos é a relação de produção entre níquel e cianeto, significativamente maior do que a observada em 2I/Borisov e muito acima da média dos cometas do Sistema Solar.
A surpreendente “cauda anti-solar”
Além das peculiaridades químicas, o cometa 3I/ATLAS apresentou uma característica visual rara: uma “cauda anti-solar”, ou seja, uma extensão de poeira voltada em direção ao Sol — o oposto do que ocorre na maioria dos cometas, cujas caudas são empurradas para longe pela pressão da radiação solar.
Esse fenômeno já havia sido sugerido por pesquisadores como o astrônomo Avi Loeb, de Harvard, e Eric Keto, mas agora foi confirmado com dados observacionais. De acordo com o estudo, a estrutura não é uma ilusão de ótica, mas o resultado da emissão lenta de partículas grandes da superfície iluminada do cometa, que não são desviadas pelo vento solar.
Casos semelhantes já foram registrados, como no cometa C/2014 UN271 (Bernardinelli–Bernstein), observado em 2021, mas ainda são considerados extremamente raros.
O que os cientistas esperam descobrir
Apesar de as observações indicarem que 3I/ATLAS é um objeto natural, o cometa segue cercado de mistério. A presença de metais como níquel e ferro em regiões onde a temperatura é baixa demais para a sublimação desses materiais permanece um desafio teórico.
Para os astrônomos, cada novo objeto interestelar descoberto é uma oportunidade única de estudar os processos de formação e evolução de sistemas planetários fora do nosso. Espera-se que telescópios de próxima geração, como o Vera C. Rubin Observatory, ampliem significativamente a detecção de visitantes interestelares nos próximos anos.
Cada um desses objetos nos conta uma história diferente sobre como o material se forma e se transforma entre as estrelas, afirmam os autores do estudo.
O 3I/ATLAS pode nos ajudar a entender não apenas o passado do nosso Sistema Solar, mas também o ambiente químico em outras regiões da galáxia.
O estudo completo está disponível em versão prévia no site arXiv.org.