Cientistas detectam aglomerado inédito de matéria escura a 10 bilhões de anos-luz da Terra
Por Sandro Felix
Publicado em 14/10/25 às 16:39
Em uma descoberta que promete redefinir o entendimento sobre a composição do universo, uma equipe internacional de astrônomos identificou um pequeno aglomerado de matéria escura localizado a cerca de 10 bilhões de anos-luz da Terra, na borda do universo observável. O objeto misterioso possui uma massa estimada em um milhão de vezes a do Sol, segundo o estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de York, no Reino Unido, e do Instituto Max Planck de Astrofísica, na Alemanha.
A matéria escura, que representa aproximadamente 27% de toda a matéria e energia do universo, é conhecida por sua natureza enigmática: ela não emite, reflete nem absorve luz, o que a torna invisível aos telescópios convencionais. No entanto, os cientistas conseguiram detectar sua presença por meio de um fenômeno físico conhecido como lente gravitacional — quando a gravidade de um corpo massivo desvia e distorce a luz de objetos que estão atrás dele.
O achado ocorreu de maneira quase acidental. Enquanto observavam um anel de Einstein — uma rara manifestação da lente gravitacional em que a luz de uma galáxia distante é curvada em forma de círculo —, os pesquisadores notaram uma distorção inesperada.
Caçar objetos escuros que não parecem emitir nenhuma luz é, sem dúvida, um desafio. Como não podemos vê-los diretamente, usamos galáxias muito distantes como um tipo de ‘luz de fundo’ para procurar suas impressões gravitacionais, explicou Devon Powell, autor principal do estudo e pesquisador do Instituto Max Planck.
Para identificar o pequeno aglomerado de matéria escura, a equipe combinou a potência de radiotelescópios espalhados por diferentes continentes, incluindo a rede European Very Long Baseline Interferometric Network (EVN) — com antenas localizadas na Europa, Ásia, África do Sul e Porto Rico —, além do Green Bank Telescope, nos Estados Unidos, e o Very Long Baseline Array, no Havaí. Juntas, essas estruturas funcionaram como se formassem um telescópio do tamanho da Terra, capaz de detectar mínimas variações no espaço-tempo.
Os dados obtidos foram processados com algoritmos avançados alimentados por supercomputadores, revelando sutis deformações na luz das galáxias distantes.
Desde a primeira imagem em alta resolução, percebemos imediatamente um estreitamento no arco gravitacional — um indício claro de que havia algo ali. Somente um pequeno aglomerado de massa entre nós e a galáxia distante poderia causar esse efeito, destacou John McKean, coautor da pesquisa e astrônomo da Universidade de Groningen, nos Países Baixos.
Essa detecção é considerada um marco na astrofísica moderna. A matéria escura é tida como um dos maiores mistérios da cosmologia, essencial para explicar a estrutura e evolução do universo, mas até hoje permanece indetectável de forma direta. A identificação desse pequeno aglomerado fornece uma pista valiosa sobre como a matéria escura se distribui e interage com a luz e a gravidade.
Os cientistas afirmam que tais descobertas podem ajudar a compreender não apenas a composição do universo, mas também eventos que antecederam o Big Bang, já que a matéria escura é considerada uma das substâncias mais antigas e fundamentais do universo.
Cada nova evidência nos aproxima um pouco mais de entender como o universo realmente funciona, concluiu Powell.
Esses pequenos aglomerados de matéria escura são como as pegadas de um gigante invisível — sinais sutis, mas fundamentais, de uma força que molda tudo o que existe.