Suposta descoberta de “DNA alienígena” em humanos viraliza na internet, mas cientistas pedem cautela
Por Sandro Felix
Publicado em 07/10/25 às 16:42
A recente circulação de uma notícia alegando a descoberta de “DNA alienígena” em humanos chamou a atenção de leitores e veículos internacionais. O caso ganhou projeção após o Daily Mail e outros portais repercutirem um estudo assinado por Max Myakishev-Rempel, que afirma ter identificado 348 “marcadores genéticos não parentais” em 11 famílias analisadas a partir dos bancos de dados do 1000 Genomes Project e da empresa de testes genéticos 23andMe. O autor chegou a sugerir, sem apresentar evidências concretas, que os resultados poderiam estar ligados a abduções e a uma suposta “hibridação” entre humanos e extraterrestres. O próprio manuscrito, porém, admite não ter sido revisado por pares e recomenda que análises futuras utilizem dados mais robustos, obtidos por meio de tecnologias de sequenciamento genômico completo (WGS) e de nova geração (NGS).
Apesar da repercussão, especialistas em genética afirmam que não há nada de sobrenatural nos resultados. O 1000 Genomes Project, usado como base na pesquisa, é um catálogo científico que reúne 2.504 genomas humanos de 26 populações ao redor do mundo. O objetivo do projeto é documentar a diversidade genética da espécie e entender como as variações surgem naturalmente entre gerações. Cada indivíduo nasce com dezenas de mutações novas em relação aos pais — um fenômeno bem conhecido e amplamente documentado. Além disso, as tecnologias de sequenciamento podem apresentar falhas e limitações que geram aparentes “inconsistências” sem qualquer relação com fenômenos fora da Terra.
Essas variações são esperadas e fazem parte do processo natural da reprodução e da evolução humana, explicam geneticistas.
Nada indica a presença de material genético não humano.
Explicações científicas substituem teorias extraterrestres
De acordo com pesquisadores, há diversas causas conhecidas para as chamadas “variantes não parentais”, aquelas que não se encaixam perfeitamente nas heranças genéticas de pai e mãe. Entre elas estão as inserções móveis — fragmentos de DNA que se movem dentro do genoma e continuam surgindo espontaneamente —, os eventos estruturais complexos difíceis de identificar, e até contaminações acidentais de amostras durante a extração e o manuseio do material genético. Outros fatores incluem a disomia uniparental (quando um cromossomo é herdado duas vezes do mesmo genitor), mosaicismos (diferenças genéticas entre células de um mesmo indivíduo) e, em raros casos, erros de paternidade não intencionais. Esses fenômenos, segundo a literatura científica, são suficientes para explicar as “anomalias” sem recorrer a seres extraterrestres. Estimativas apontam que inserções de elementos LINE-1, por exemplo, ocorrem em cerca de um a cada 20 a 200 nascimentos, produzindo justamente o tipo de variação que pode ser confundida com “DNA estranho”.
Outro ponto criticado é o uso dos dados da 23andMe, empresa que oferece testes genéticos diretos ao consumidor. Esses serviços utilizam microarranjos (SNP-chips) que analisam apenas posições genéticas já conhecidas e não são capazes de detectar novas sequências ou variações estruturais complexas. Além disso, esses testes são pouco confiáveis para variantes raras, algo reconhecido tanto pela comunidade científica quanto pela própria agência reguladora norte-americana (FDA). Especialistas destacam que alegações extraordinárias, como a presença de DNA não humano, exigem metodologias igualmente rigorosas — algo que inclui o sequenciamento completo do genoma, validação independente dos resultados e revisão por pares antes da divulgação pública.
Embora o título “DNA alienígena” chame atenção, o genoma humano já contém elementos que, à primeira vista, podem parecer de outro mundo. Cerca de 8% do nosso DNA é formado por retrovírus endógenos — fragmentos de infecções virais que se integraram ao genoma de nossos ancestrais há milhões de anos. Outros 45% correspondem a sequências repetitivas e transposons, componentes que ajudaram a moldar a evolução da espécie. Nada disso, entretanto, tem relação com abduções ou visitas recentes de seres de outros planetas. Por fim, o estudo também sugere, sem comprovação, que as supostas “inserções alienígenas” estariam associadas a condições como autismo e TDAH. A comunidade científica rejeita essa hipótese, lembrando que há consenso sobre as causas multifatoriais dessas condições, que envolvem variantes genéticas humanas, fatores ambientais e mecanismos biológicos complexos, sem espaço para explicações extraordinárias.
Até o momento, não existe qualquer evidência confiável de DNA alienígena em humanos. O manuscrito que motivou a polêmica carece de base metodológica, revisão técnica e dados sólidos. Para os cientistas, a hipótese de hibridação com seres de outros mundos permanece apenas como mais um exemplo de especulação sem fundamento — e de como a ciência, mesmo diante de temas fascinantes, exige rigor, cautela e provas concretas antes de aceitar qualquer afirmação extraordinária.