O deserto mais seco do planeta fica na Antártida e não vê chuva há 2 milhões de anos
Por Sandro Felix
Publicado em 02/10/25 às 17:40
Quando se pensa em regiões de seca extrema, logo vêm à mente o deserto do Saara ou o Vale da Morte, na Califórnia. No entanto, um dos ambientes mais áridos do planeta está em um local improvável: a Antártida. Na Terra de Vitória, uma vasta região da Antártica limitada a leste pelo mar de Ross e a oeste pela terra de Wilkes, encontram-se os Vales Secos de McMurdo, uma área de cerca de 4.800 quilômetros quadrados onde não chove há aproximadamente dois milhões de anos.
O cenário é paradoxal. Embora o continente antártico seja amplamente coberto por espessas camadas de gelo, os Vales Secos permanecem praticamente despidos. A explicação está em sua geografia singular e em um fenômeno atmosférico particular: os ventos catabáticos. Essas correntes descem das Montanhas Transantárticas a velocidades que podem ultrapassar 300 quilômetros por hora, evaporando qualquer resquício de umidade que tente se instalar nas planícies.
Esse isolamento climático torna a região ainda mais seca do que o deserto de Atacama, no Chile, considerado tradicionalmente o lugar mais árido da Terra. Enquanto no Atacama caem, em média, 15 milímetros de chuva por ano, em McMurdo os registros são ainda menores — em alguns pontos, praticamente inexistentes. Por isso, os cientistas falam em uma estiagem que se prolonga por milhões de anos.
Apesar do aspecto inóspito, os Vales Secos não são totalmente estéreis. O ambiente extremo se transformou em um laboratório natural para a ciência. Pesquisas já identificaram a presença de bactérias altamente resistentes, capazes de sobreviver ao frio intenso, ao ar extremamente seco e à forte radiação ultravioleta. Nos breves verões antárticos, quando o gelo derrete e enriquece o solo com nutrientes, esses microrganismos encontram condições mínimas para prosperar.
Um dos fenômenos mais impressionantes da região é o das chamadas Cataratas de Sangue, localizadas no glaciar Taylor. Ali, micro-organismos anaeróbicos que metabolizam ferro e enxofre liberam compostos que tingem o gelo de vermelho vivo, criando uma paisagem ao mesmo tempo intrigante e fascinante. Esse tipo de ocorrência reforça a visão de que os Vales Secos são um dos ambientes terrestres mais semelhantes a Marte.
Não por acaso, a NASA e outras agências espaciais já realizaram diversas missões científicas no local. O objetivo é entender como a vida consegue se adaptar a um ecossistema tão hostil e, assim, ampliar as possibilidades de identificar formas de vida no planeta vermelho ou em luas geladas como Europa, de Júpiter, e Encélado, de Saturno.
Os Vales Secos de McMurdo se firmam como o deserto mais seco da Terra, superando até o Atacama em falta de precipitações. Entre gelo e ventos implacáveis, o que surpreende nesse território não é apenas a ausência de chuva por milhões de anos, mas o fato de que, mesmo em meio ao continente mais gelado do planeta, ele guarda o recorde de ser o lugar mais árido do mundo.