Intel recebe investimento bilionário do governo dos EUA após anos de queda e perda de protagonismo no setor de chips

Publicado em 24/08/25 às 06:40

A Intel, gigante dos semicondutores que um dia simbolizou o coração do Vale do Silício e a revolução dos computadores pessoais, tornou-se, nesta sexta-feira (22), a destinatária de um dos maiores aportes já feitos pelo governo dos Estados Unidos em uma empresa desde a crise financeira de 2008. O presidente Donald Trump anunciou a aquisição de uma participação de 10% na companhia, avaliada em aproximadamente US$ 8,9 bilhões, como parte de um acordo atrelado ao programa de subsídios da CHIPS Act.

Fundada em 1968 por Robert Noyce, Gordon Moore e Andy Grove, a Intel foi responsável por transformar o transistor em peça-chave de produtos que vão de torradeiras a caças militares. Sob a liderança de Grove, entre 1979 e 2005, a empresa tornou-se fornecedora dominante de processadores para computadores, protagonizando a chamada “era Wintel”, marcada pela parceria com a Microsoft e a disseminação global dos PCs.

Contudo, após a saída de Grove, a trajetória da companhia perdeu fôlego. A Intel falhou em acompanhar a revolução dos smartphones, deixou escapar a corrida da inteligência artificial e perdeu espaço no setor de fabricação de chips para concorrentes como a TSMC e a Samsung. Um erro emblemático foi a recusa, em 2005, de produzir chips para o primeiro iPhone, decisão que o então CEO Paul Otellini mais tarde admitiu ter sido um equívoco estratégico.

Nos últimos anos, a empresa buscou reagir. Sob o comando de Pat Gelsinger, em 2021, anunciou investimentos de mais de US$ 100 bilhões em fábricas nos EUA, além de garantir quase US$ 8 bilhões em subsídios do governo americano para a construção de novas instalações em Ohio. Apesar disso, viu a Nvidia disparar no mercado com processadores gráficos essenciais ao avanço da inteligência artificial, enquanto suas próprias receitas encolhiam.

A crise culminou com a demissão de Gelsinger e a nomeação de Lip-Bu Tan, veterano da indústria de semicondutores. Tan prometeu cortes de custos, uma nova estratégia de IA e a busca por clientes para as próximas gerações de chips. Porém, enfrentou resistência política em Washington devido a seus investimentos em empresas chinesas, levando Trump a intervir diretamente nas negociações.

O acordo selado agora dá ao governo norte-americano uma fatia acionária da Intel em troca dos recursos recebidos pelo CHIPS Act. Em comunicado, a empresa afirmou que “acolhe o investimento contínuo e o reconhecimento do papel crítico da Intel para a liderança americana em tecnologia e manufatura”.

Enquanto isso, a distância em relação aos rivais é cada vez mais evidente. Avaliada hoje em US$ 108 bilhões, a Intel vê de longe a Nvidia, atual empresa mais valiosa do mundo, com valor de mercado superior a US$ 4,3 trilhões.

Especialistas apontam que a trajetória da Intel ilustra um dos maiores dilemas do setor de tecnologia: companhias que um dia revolucionaram a indústria podem, sem inovação contínua, perder protagonismo e depender da intervenção estatal para sobreviver. Como disse David Yoffie, ex-membro do conselho da Intel e professor da Harvard Business School: “O que vemos hoje é exatamente o que Andy Grove sempre temeu: complacência, incrementalismo e, por fim, a mão pesada do governo”.