Infecção óssea devastadora matou dinossauros pescoçudos no interior de SP

Publicado em 04/08/25 às 16:42

Pesquisadores brasileiros fizeram uma descoberta surpreendente no município de Ibirá, interior de São Paulo: seis fósseis de saurópodes — dinossauros conhecidos por seus longos pescoços — datados de aproximadamente 80 milhões de anos, período correspondente ao Cretáceo. Além da importância paleontológica do achado, o que chamou a atenção dos cientistas foram os sinais claros de osteomielite — uma infecção grave nos ossos — presentes nos restos fossilizados dos animais.

O estudo, publicado no periódico científico The Anatomical Record, foi conduzido por pesquisadores da Universidade Regional do Cariri (Urca), da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e da Universidade de São Carlos (UFSCar), com apoio do Instituto de Estudos dos Hymenoptera Parasitoides da Região Sudeste Brasileira (IEHYPA-Sudeste). De acordo com o autor principal da pesquisa, Tito Aureliano, da Urca, essa não é a primeira vez que sinais de doenças infecciosas são detectados em fósseis de dinossauros pescoçudos. Um achado anterior, feito no mesmo sítio paleontológico, também revelou evidências similares.

A proximidade temporal e geográfica dos ossos analisados sugere que as condições ambientais da região favoreceram a disseminação de patógenos entre diferentes indivíduos da fauna local, afirma Aureliano.

A investigação revelou diferentes tipos de lesões nos ossos, sendo que uma delas estava restrita à medula, enquanto outras se estendiam da parte interna até a superfície externa. A textura esponjosa observada nas áreas afetadas indica forte vascularização, um aspecto que ajudou a diferenciar essas marcas de outras patologias ósseas, como osteossarcoma e neoplasias. A ausência de sinais de cicatrização reforça a hipótese de que os animais morreram com a infecção ainda ativa, afastando outras possíveis causas, como mordidas ou ferimentos traumáticos.

No osso fossilizado de cerca de 80 milhões de anos, as setas indicadas por BL apontam a lesão causada por osteomielite. HB é a parte não lesionada e MB é a medula óssea /Imagem: Tito Aureliano et al. – The Anatomical Record

Para analisar os fósseis, os pesquisadores utilizaram microscópios eletrônicos de varredura (SEM) e estereomicroscópios, o que permitiu a identificação de três padrões distintos de osteomielite: pequenas protuberâncias arredondadas, outras em formato de impressão digital elíptica e marcas largas e circulares. “Essas lesões podiam se conectar com músculos e pele e ficarem expostas, vertendo sangue ou pus”, explica o paleontólogo.

Embora os ossos não estivessem completamente identificados, os cientistas confirmaram que um deles pertence a uma costela e os demais, a membros inferiores dos animais. No entanto, a origem exata da infecção ainda permanece desconhecida.

Formação geológica favoreceu fossilização e proliferação de doenças

Os fósseis foram localizados na Formação São José do Rio Preto, uma área com características ambientais que contribuíam tanto para a preservação dos corpos quanto para a disseminação de doenças. O ambiente árido, com rios lentos e poças d’água paradas, fazia com que muitos animais ficassem atolados e morressem, favorecendo o processo de fossilização. Ao mesmo tempo, essas mesmas condições teriam criado um cenário ideal para a proliferação de microrganismos causadores de infecções.

Patógenos podiam ser transmitidos por insetos, como mosquitos, ou até pela água contaminada ingerida por dinossauros, tartarugas e animais semelhantes aos crocodilos modernos, afirma Aureliano.

A pesquisa traz contribuições relevantes para a paleopatologia, ramo que estuda doenças em fósseis, e abre caminho para investigações futuras sobre as diversas formas de manifestações de infecções ósseas em animais extintos.