China inicia megaprojeto hidrelétrico no Tibete que pode alterar o eixo da Terra e aumentar tensões geopolíticas

Publicado em 03/08/25 às 06:48

Em 2010, a NASA fez um alerta impressionante: a construção da gigantesca represa das Três Gargantas, com seus 40 bilhões de metros cúbicos de água represada, não apenas transformou a paisagem do rio Yangtzé, como também teve impacto físico no planeta. O eixo da Terra se deslocou em dois centímetros e a rotação do planeta foi desacelerada em 0,06 microsegundos. Mesmo diante desse precedente, a China acaba de iniciar um novo megaprojeto hidrelétrico ainda mais ambicioso, capaz de multiplicar esses efeitos.

A nova obra, avaliada em US$ 167 bilhões, será composta por uma cadeia de cinco represas construídas em cascata na região do Tibete, conhecida por sua intensa atividade sísmica e importância geopolítica. Quando concluída, a infraestrutura poderá gerar cerca de 300 bilhões de kWh por ano — quase o triplo da produção da já monumental represa das Três Gargantas.

Barragem da hidrelétrica das Três Gargantas / Imagem: Reprodução

O projeto integra a estratégia do governo chinês de liderar a transição energética global, reduzindo sua dependência do carvão e se posicionando como uma potência em energias renováveis. No entanto, essa ambição encontra resistência de países vizinhos e comunidades locais preocupadas com as possíveis repercussões ambientais e políticas da construção.

Índia, Bangladesh e grupos tibetanos expressaram suas apreensões quanto ao impacto nos rios transfronteiriços que têm origem no Himalaia, como o Brahmaputra, dos quais dependem dezenas de milhões de pessoas. O controle chinês sobre esses cursos d’água levanta temores de escassez hídrica e aumento de tensões diplomáticas na região.

Especialistas também alertam para os riscos geológicos da obra. O geólogo independente Fan Xiao, citado pelo jornal The Guardian, lembra que reservatórios de grande escala podem induzir terremotos, um fenômeno reconhecido pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS). A pressão da água sobre falhas tectônicas pode desencadear movimentos sísmicos, especialmente em uma zona já instável como o Tibete.

Trecho de rio no Tibete onde será construído uma das cinco represas / Imagem: Reprodução

Ainda que o deslocamento do eixo terrestre em dois centímetros não afete diretamente a vida cotidiana, ele serve como prova de que atividades humanas são capazes de interferir em sistemas planetários antes considerados imutáveis. Estudos do Jet Propulsion Laboratory da NASA e do periódico Geophysical Research Letters demonstram que o armazenamento massivo de água, como em grandes represas, altera o equilíbrio do momento angular da Terra — um efeito similar ao provocado pelo derretimento de geleiras ou esgotamento de aquíferos.

A dúvida que permanece é sobre a magnitude dos efeitos que um projeto três vezes maior pode causar. Para o geofísico Surendra Adhikari, do JPL, é improvável que a nova obra altere de forma crítica a rotação do planeta, mas ele não descarta a possibilidade de contribuir com microalterações acumulativas que, somadas ao aquecimento global e outras ações humanas, possam modificar os padrões geofísicos ao longo do tempo.

Além das implicações ambientais, o megaprojeto amplia as tensões geopolíticas. Erguido em território tibetano, uma região historicamente reivindicada por movimentos independentistas e observada com desconfiança pela Índia, o empreendimento pode reacender disputas fronteiriças em uma das áreas mais militarizadas do mundo. Bangladesh, por sua vez, teme ser afetado pelas decisões hídricas tomadas por seus dois vizinhos gigantescos, sem poder de influência direto.

O novo capítulo da engenharia chinesa mostra que, enquanto o país avança na busca por protagonismo energético global, o mundo observa com preocupação os efeitos colaterais dessa ambição sobre o planeta — e sobre a paz entre nações.