Fotos aéreas esquecidas mostram evolução dramática do colapso de gelo antártico

Publicado em 17/07/25 às 16:49

Pesquisadores da Universidade de Copenhague descobriram um conjunto de fotografias aéreas tiradas há décadas que estão ajudando a compreender melhor o colapso das plataformas de gelo da Antártida. As imagens, consideradas um conjunto de dados inédito, podem aprimorar as previsões sobre a elevação do nível do mar e influenciar ações globais de enfrentamento das mudanças climáticas.

As fotografias datam de 28 de novembro de 1966, quando uma aeronave americana sobrevoou a Península Antártica ao sul da ponta mais meridional do Chile. O objetivo era mapear a paisagem da região usando uma câmera que pode ter sido emprestada pela Marinha dos Estados Unidos. Durante esse voo, foram registradas imagens da plataforma de gelo Wordie, uma vasta formação composta por vários glaciares situada na Baía Marguerite, na parte ocidental da península.

Na época, a plataforma de gelo Wordie cobria uma área de aproximadamente 2.200 quilômetros quadrados. Contudo, a partir do fim da década de 1980, essa estrutura começou a recuar drasticamente. Já no início dos anos 2000, ela havia praticamente desaparecido, restando apenas pequenas plataformas fragmentadas.

Com a perda da Wordie, rompeu-se o “tampão” que mantinha grandes massas de gelo glaciar retidas, contribuindo assim para o aumento do nível do mar. Apesar de seu impacto ter sido limitado – equivalente a poucos milímetros – o acontecimento serve como alerta. Outras plataformas, como as gigantes Ronne e Ross, armazenam gelo suficiente para elevar os oceanos em até cinco metros se colapsarem devido ao aquecimento global.

A plataforma de gelo Wordie entrou em colapso total na década de 2000 / Imagem: Mads Dømgaard

Esse não é um problema restrito ao hemisfério sul. O eventual colapso dessas estruturas terá consequências globais, afetando também regiões do hemisfério norte. É nesse contexto que as imagens antigas da plataforma Wordie se tornam especialmente valiosas: elas fornecem o primeiro ponto de dados concreto para compreender o processo gradual de colapso que se estendeu por décadas.

A equipe de pesquisa analisou essas imagens em conjunto com um extenso acervo de fotos aéreas históricas e observações por satélite modernas. O estudo demonstrou que o colapso das plataformas de gelo não ocorre repentinamente, mas sim como um processo contínuo e prolongado. Esse entendimento mais detalhado é essencial para aprimorar modelos computacionais que projetam a elevação do nível do mar e para definir estratégias eficazes de adaptação climática.

Segundo Mads Dømgaard, pós-doutorando do Departamento de Geociências e Gestão de Recursos Naturais da Universidade de Copenhague e autor principal do estudo, “identificamos vários sinais iniciais do colapso de plataformas de gelo que esperamos observar em outras regiões semelhantes, mas, talvez mais importante, nosso conjunto de dados nos dá diversos pontos de ancoragem para avaliar o grau de avanço de um colapso.”

A equipe utilizou uma técnica chamada fotogrametria por estrutura a partir do movimento (structure-from-motion) para analisar as imagens. Com isso, foi possível reconstruir dados sobre espessura, estrutura superficial, extensão e velocidade do fluxo de gelo da plataforma Wordie desde a década de 1960.

Até então, presumia-se que a principal causa do colapso tivesse sido o aquecimento atmosférico, associado à formação de lagos de água de derretimento na superfície do gelo. No entanto, os novos dados apontam outro culpado: o derretimento se deu principalmente na base da plataforma, na interface com o mar, impulsionado pelo aumento das temperaturas oceânicas.

Nossas descobertas mostram que o principal fator por trás do colapso da Wordie é o aumento da temperatura do mar, que gerou o derretimento sob a plataforma de gelo flutuante, afirmou Dømgaard.

Para Anders Anker Bjørk, professor assistente no mesmo departamento, os resultados oferecem um novo olhar sobre o ritmo desse processo:

A conclusão preliminar é que o colapso de plataformas de gelo pode ser mais lento do que pensávamos. Isso reduz um pouco o risco de um aumento extremamente rápido do nível do mar, mas revela outra preocupação.

Bjørk alerta que o processo mais longo torna ainda mais difícil reverter a tendência de derretimento uma vez iniciada.

Já era como tentar virar um superpetroleiro para frear o derretimento, e agora sabemos que ele é ainda mais lento do que imaginávamos. Isso reforça a urgência de reduzir as emissões de gases de efeito estufa agora, e não em algum momento no futuro.

O estudo foi publicado na revista científica Nature Communications.