NVIDIA entra na corrida da energia nuclear para sustentar demanda da inteligência artificial

Publicado em 19/06/25 às 17:23

A NVIDIA, gigante dos chips e referência no desenvolvimento de soluções para inteligência artificial, anunciou um movimento estratégico que vai muito além dos semicondutores: investir em energia nuclear. Por meio do seu fundo de venture capital, o NVentures, a empresa se tornou cofinanciadora da TerraPower, startup fundada por Bill Gates, em uma rodada de investimentos de US$ 650 milhões, que também contou com a participação da coreana HD Hyundai.

O objetivo da TerraPower é ambicioso: desenvolver reatores nucleares modulares de última geração, conhecidos como SMRs (Small Modular Reactors), capazes de fornecer energia limpa, estável e escalável para operações de grande porte, como os centros de dados (data centers) que sustentam os modelos de inteligência artificial e supercomputadores.

O primeiro projeto da TerraPower já está em construção em Wyoming, nos Estados Unidos, e deve começar a operar comercialmente até 2030. Este reator, batizado de Natrium, faz parte do Advanced Reactor Demonstration Program, iniciativa do Departamento de Energia dos EUA que busca acelerar a adoção de fontes de energia limpa e confiável.

O reator Natrium é uma inovação tecnológica que utiliza sódio líquido como agente de resfriamento, podendo gerar 345 megawatts de energia. Além disso, conta com um sistema de armazenamento de calor em sal fundido, permitindo que a capacidade chegue a até 1 Gigawatt durante os picos de demanda. Essa flexibilidade é fundamental para equilibrar as variações de carga típicas dos data centers.

Apesar do início das obras civis, o projeto ainda depende da aprovação da Comissão Reguladora Nuclear (NRC) dos Estados Unidos para avançar na etapa nuclear. A previsão é que essa autorização seja concedida apenas em 2026.

Para Jensen Huang, CEO da NVIDIA, o futuro da inteligência artificial não depende apenas de algoritmos e chips, mas também de uma matriz energética robusta, limpa e escalável.

Ter acesso a energia limpa, estável e escalável é o novo desafio da computação de alto desempenho, destacou Huang durante entrevista.

A entrada da NVIDIA no setor nuclear não é um movimento isolado. Outras gigantes da tecnologia também estão traçando estratégias semelhantes. A Oracle, por exemplo, já obteve permissão para instalar três reatores modulares que, juntos, podem gerar 1 Gigawatt de energia. O Google firmou um acordo com a Kairos Power para utilizar sete SMRs em suas operações, enquanto a Microsoft está em processo de reativação do histórico reator de Three Mile Island. A Amazon, por sua vez, diversifica sua estratégia com investimentos em três empresas do setor energético, sendo duas focadas em soluções nucleares.

Esse movimento acelerado tem uma explicação clara: o gargalo energético se tornou uma das principais ameaças à expansão da inteligência artificial em escala global. A estimativa é que supercomputadores em escala zettascale possam consumir até meio gigawatt — o equivalente ao consumo de aproximadamente 375 mil residências.

Além da TerraPower, outros projetos também avançam nos Estados Unidos. A Kairos Power iniciou a construção do reator experimental Hermes em Oak Ridge, Tennessee. Embora não gere eletricidade, o Hermes tem como objetivo validar a segurança de um modelo de reator refrigerado por sal fundido. A tradicional Westinghouse também aposta no desenvolvimento do eVinci, um micro-reator compacto capaz de operar por até oito anos sem a necessidade de reabastecimento. Seu design permite transporte por caminhão, oferecendo uma solução rápida e eficiente para locais remotos ou estratégicos.

Instalações da Kairos Power / Imagem: Reprodução

A corrida pela energia nuclear surge em um contexto em que a própria estabilidade da rede elétrica convencional e os elevados custos de energia em áreas densamente povoadas tornaram-se fatores de risco para empresas que lideram a transformação digital. Mark Zuckerberg, CEO da Meta, recentemente destacou que, após a superação da escassez de GPUs, o maior obstáculo ao crescimento da inteligência artificial é, justamente, o acesso à energia.

Ainda que os investimentos bilionários de empresas como NVIDIA, Oracle e Amazon estejam acelerando o desenvolvimento dessa nova infraestrutura energética, os desafios regulatórios e os longos prazos necessários para maturação dos projetos permanecem como barreiras. O próprio reator Natrium, da TerraPower, só deve começar a gerar energia na próxima década, após anos de testes e certificações rigorosas.

Mesmo assim, o cenário é claro: com a entrada das Big Techs no setor nuclear, a energia atômica se posiciona como peça-chave não apenas na sustentação dos data centers, mas também na transformação da matriz energética global.