1782, o ano em que um surto de lagartas aterrorizou Londres
Por Sandro Felix
Publicado em 18/06/25 às 17:30
Londres, década de 1780. A capital britânica vivia dias de incerteza e turbulência. Mal havia se recuperado dos violentos distúrbios anti-católicos conhecidos como Gordon Riots, que deixaram centenas de mortos e bairros inteiros em cinzas, quando uma nova ameaça, inusitada e inquietante, tomou conta da cidade: uma invasão massiva de lagartas.
O episódio, ocorrido na primavera de 1782, surpreendeu os londrinos ao transformar parques, jardins e áreas rurais vizinhas em verdadeiros campos tomados por teias espessas e árvores completamente desfolhadas. As responsáveis? As lagartas da mariposa brown-tail (cauda-marrom), cujos ninhos sedosos tomaram conta da paisagem. O fenômeno, embora natural, despertou medo e pânico, sendo rapidamente associado a presságios de pragas, doenças e até fome iminente.
Naquela época, em meio à Revolução Americana do outro lado do Atlântico e a uma Londres ainda em reconstrução, informações sobre fenômenos naturais eram escassas para a maior parte da população. Sem acesso à educação formal ou conhecimentos científicos, muitos interpretavam esses eventos como sinais divinos ou advertências sobrenaturais.
O cenário ficou ainda mais tenso quando, coincidentemente, surgiu um surto de gripe nos bairros mais pobres da cidade — exatamente onde as lagartas eram mais numerosas. Relatos começaram a circular sobre náuseas, irritações na pele e mal-estares após o contato com os pelos urticantes dos insetos. Rapidamente, jornais passaram a noticiar que as lagartas poderiam estar disseminando doenças.
A situação ganhou contornos quase teatrais com a atuação de Gustavus Katterfelto, um showman carismático que misturava pseudociência, truques de mágica e autoproclamações de autoridade científica. Katterfelto promovia apresentações públicas nas quais projetava imagens ampliadas das lagartas, anunciando que os insetos eram responsáveis por trazer peste e fome à cidade. Ao final de seus espetáculos, vendia tônicos e remédios “milagrosos” que prometiam proteger a população contra as supostas ameaças.
Figura controversa, Katterfelto personificava o limite tênue, comum naquele período, entre ciência, entretenimento e charlatanismo. Munido de equipamentos como microscópios solares e bombas de ar — tecnologias fascinantes e pouco conhecidas na época —, ele impressionava o público com demonstrações que misturavam magnetismo, eletricidade e supostas explicações matemáticas para os fenômenos naturais.
Contudo, diante do crescimento do pânico popular, membros da comunidade científica começaram a reagir. Entomologistas renomados, como William Curtis e Joseph Banks, publicaram panfletos educativos buscando esclarecer a verdadeira natureza das lagartas. Explicaram que, embora causassem danos às plantas e pudessem provocar irritações na pele, esses insetos não tinham qualquer relação com epidemias ou desastres iminentes.
O episódio, que ficou conhecido como o Surto das Lagartas de Londres de 1782, acabou não resultando nem em pragas, nem em fome. As previsões alarmistas de Katterfelto não se concretizaram, e ele passou a ser alvo de sátiras e piadas pela cidade. No entanto, o episódio deixou um legado importante: evidenciou o embate crescente entre a superstição popular e o avanço do pensamento científico — um embate que, de certa forma, ainda persiste na sociedade contemporânea.
Conforme destacou o historiador Johan Lidwell-Durnin, responsável por um estudo recente sobre o caso, a interpretação dos fenômenos naturais naquela época ainda transitava entre o misticismo e os primeiros passos da ciência moderna. “Os insetos eram uma ameaça simbólica; chegaram sem aviso, e grande parte do debate público girou em torno do que eles prenunciavam para o futuro próximo”, escreveu. Lidwell-Durnin conclui que, embora a ciência tenha oferecido respostas racionais, o evento demonstrou que o caminho rumo à consolidação da autoridade científica seria longo, cheio de desafios — e, por vezes, surpreendentemente teatral.