Cientistas encontram antibiótico promissor contra superbactérias nas profundezas de uma mina chinesa
Por Sandro Felix
Publicado em 18/05/25 às 07:56
Cientistas encontraram um novo antibiótico promissor em uma mina na China, trazendo esperança diante da crescente ameaça das superbactérias resistentes a medicamentos. A descoberta foi feita por uma equipe da Universidade de Viena, em parceria com o Instituto Helmholtz de Pesquisa Farmacêutica de Saarland, que identificou uma molécula inédita chamada saarvienin A.
O composto é um antibiótico do tipo glicopeptídeo, produzido por uma cepa incomum da bactéria Amycolatopsis, conhecida por originar outros antibióticos potentes como a vancomicina. A cepa específica foi isolada no distrito de mineração Bayan Obo, na Mongólia Interior, região famosa por abrigar a maior jazida de elementos terras-raras do planeta.
No laboratório, os pesquisadores cultivaram a bactéria e extraíram seus compostos naturais. Dentre eles, saarvienin A se destacou por apresentar atividade significativa contra bactérias Gram-positivas, com destaque para cepas de Staphylococcus aureus resistentes a antibióticos convencionais, como meticilina, vancomicina e daptomicina.
O novo antibiótico atua de maneira distinta da maioria dos glicopeptídeos. Enquanto compostos como a vancomicina inibem a síntese da parede celular bacteriana ao se ligarem a blocos específicos, o mecanismo de ação do saarvienin A ainda não é completamente compreendido. Sua estrutura molecular também se diferencia das demais conhecidas da mesma classe.
Ficamos empolgados ao descobrir que o saarvienin A não se encaixa em nenhuma categoria já conhecida. Sua estrutura única pode abrir caminho para antibióticos que as bactérias nunca enfrentaram antes, afirmou Jaime Felipe Guerrero-Garzón, coautor do estudo e pesquisador do Departamento de Ciências Farmacêuticas da Universidade de Viena.
O próximo passo da equipe será aprofundar os estudos sobre o novo composto para avaliar seu potencial como candidato a medicamento de uso humano.
Descobrir um novo antibiótico é apenas o começo. Agora enfrentamos o desafio fascinante de refiná-lo para que se torne um candidato viável ao uso clínico, disse Sergey B. Zotchev, autor correspondente do estudo.
A busca por novos antibióticos é cada vez mais urgente diante da resistência bacteriana, um problema amplificado pelo uso indiscriminado e inadequado de antibióticos tradicionais. Em 2019, estima-se que as bactérias resistentes tenham causado 1,27 milhão de mortes em todo o mundo, número que pode chegar a 8,22 milhões por ano até 2050, segundo projeções.
Ainda assim, a ciência segue encontrando novos compostos antimicrobianos. Muitos vêm sendo descobertos na natureza, escondidos em solos, fontes hidrotermais profundas e até mesmo em minas. Outros têm sido identificados com o auxílio da inteligência artificial, que analisa vastas bibliotecas digitais de compostos químicos em busca de moléculas com potencial para combater superbactérias — uma estratégia que já vem mostrando resultados promissores.
O estudo completo sobre a descoberta foi publicado na revista científica Angewandte Chemie International Edition.