Pesquisadores dos EUA investigam formação geológica na Turquia que pode estar ligada à Arca de Noé

Publicado em 15/05/25 às 16:34

Um grupo de pesquisadores independentes dos Estados Unidos voltou suas atenções para uma formação rochosa curiosa situada em uma montanha no leste da Turquia. O grupo acredita que o local, conhecido como sítio Durupınar, pode conter vestígios da Arca de Noé, embarcação descrita na narrativa bíblica do Gênesis. Embora a possibilidade desperte fascínio, especialistas pedem cautela e lembram que alegações similares no passado carecem de respaldo científico.

O sítio arqueológico de Durupinar fica no Monte Tendürek, no leste da Turquia / Imagem: Kasbah

Localizado na encosta sul do Monte Tendürek, o sítio Durupınar se destaca por sua forma alongada, com 164 metros de comprimento, que remete ao contorno de uma embarcação. Essa característica vem alimentando, há décadas, teorias sobre a existência de uma suposta arca petrificada.

A formação foi identificada pela primeira vez em 1948, mas só ganhou notoriedade nos anos 1970 e 1980, quando o norte-americano Ron Wyatt, autodenominado arqueólogo amador, afirmou que aquele seria o local onde a Arca de Noé teria repousado após o dilúvio bíblico. Wyatt ficou conhecido por alegações controversas envolvendo a localização de outros elementos bíblicos, como as cidades de Sodoma e Gomorra, o local da travessia do Mar Vermelho e até mesmo a Arca da Aliança sob o Monte do Templo, em Jerusalém.

Apesar da repercussão, suas declarações não são levadas a sério pela comunidade científica. Em 1996, Joe Zias, então membro da Autoridade de Antiguidades de Israel, declarou que as alegações de Wyatt “beiram o absurdo, não possuem qualquer base científica e nunca foram publicadas em revistas profissionais”.

Vários levantamentos geofísicos foram conduzidos no local por grupos privados, entre eles a própria equipe de Wyatt e pesquisadores turcos, com expedições realizadas nas décadas de 1980, 2010, 2014 e 2019. Nenhum dos resultados foi publicado oficialmente, e a maioria das análises feitas por outros especialistas indica que a formação não passa de uma estrutura rochosa natural.

Ainda assim, o interesse no local persiste. Um dos grupos envolvidos atualmente é o coletivo de pesquisa californiano Noah’s Ark Scan. Em nota recente, a equipe afirmou que não há planos imediatos para escavações. O foco atual está na preservação do sítio e no apoio a estudos conduzidos por universidades turcas, com uso de tecnologias não invasivas.

Escavações no ‘local do barco’ ainda não começaram porque precisamos realizar mais levantamentos geofísicos, perfurações de sondagem e um planejamento cuidadoso. A área se encontra em uma zona de fluxo de terra ativa, com invernos rigorosos, então a preservação é nossa prioridade, informou o grupo.

Segundo eles, testes não destrutivos como amostragem de solo, varreduras por radar e outras técnicas serão utilizados nos próximos anos para avaliar se as estruturas detectadas são artificiais ou formações naturais. Apenas com evidências suficientes e um plano de preservação aprovado, uma escavação poderá ser considerada.

Entre os que inicialmente acreditaram na hipótese da Arca de Noé no local está o pesquisador David Fasold, que participou das primeiras expedições. No entanto, com o tempo, ele se tornou cético. Em 1996, coassinou um artigo científico revisado por pares com o título contundente: “Falsa ‘Arca de Noé’ da Turquia exposta como estrutura geológica comum”.

Até o momento, não há evidências científicas que comprovem a ocorrência de um dilúvio global como descrito na Bíblia, tampouco de que uma embarcação tenha sido construída para salvar todas as formas de vida. Apesar disso, a recorrência de mitos sobre grandes enchentes em diferentes culturas — como no épico mesopotâmico de Gilgamesh, na tradição grega, hindu e entre povos indígenas das Américas — segue despertando interesse e debate.

A existência de narrativas semelhantes sobre catástrofes naturais pode sugerir a transmissão oral de eventos locais marcantes ou representar uma metáfora cultural profunda sobre destruição, sobrevivência e a busca humana por ordem em meio ao caos.