Ano 536 d.C. é apontado como um dos piores da história da humanidade
Por Sandro Felix
Publicado em 15/05/25 às 16:14
O ano de 536 d.C. tem sido cada vez mais citado por historiadores e cientistas como um dos momentos mais sombrios da trajetória humana. Marcado por fenômenos naturais extremos, mudanças climáticas drásticas e desordem social, esse período foi recentemente qualificado como “o pior ano para se estar vivo” por especialistas como o historiador Michael McCormick, da Universidade de Harvard.
Um dos principais eventos desse ano foi uma erupção vulcânica de grandes proporções, cuja origem exata ainda é debatida entre estudiosos. Por muito tempo, o vulcão Ilopango, em El Salvador, foi considerado o principal responsável. No entanto, uma pesquisa recente apontou para uma possível erupção ocorrida na Islândia, com base na análise de núcleos de gelo que revelaram partículas de vidro vulcânico semelhantes às encontradas na Europa e na Groenlândia.
O impacto atmosférico dessa erupção foi devastador. Uma densa camada de poeira e cinzas encobriu o sol, causando um escurecimento global. O estadista romano Cassiodoro, escrevendo em 538 d.C., relatou um céu de cor azulada, ausência de sombras ao meio-dia e perda de intensidade da luz solar. Já o historiador bizantino Procópio descreveu o pavor que tomou conta da população diante da névoa persistente e da escuridão.
A ciência moderna corrobora esses relatos antigos. Anéis de crescimento de árvores cortadas na Dinamarca mostram sinais de severo estresse ambiental nessa época. Núcleos de gelo extraídos da Groenlândia e da Antártida revelam a presença de uma espessa camada de poeira ácida na atmosfera, resultado da erupção vulcânica e responsável pelo que muitos chamam de “inverno vulcânico”.
As consequências foram imediatas e abrangentes. As temperaturas caíram drasticamente no hemisfério norte, e a agricultura entrou em colapso. Esse fenômeno é associado ao início da chamada Pequena Idade do Gelo da Antiguidade Tardia, que se estendeu por várias décadas. Houve registros de neve no verão na China, secas na América do Sul e relatos de fome generalizada na Europa.
Os anais irlandeses gaélicos mencionam a “falta de pão no ano 536”. Paralelamente, a peste bubônica começou a se espalhar pelo porto romano de Pelúsio, no Egito, desencadeando a pandemia que ficaria conhecida como a Peste Justiniana. Constantinopla, capital do Império Romano do Oriente, foi severamente atingida, e milhões de pessoas morreram nas décadas seguintes.
Esse conjunto de desastres não apenas enfraqueceu o Império Romano do Oriente, como também afetou outras regiões. Na Ásia Central, a escassez de pastagens impulsionou movimentos migratórios que levaram a confrontos com potências locais na China. Em um desenvolvimento inesperado, tribos das estepes formaram alianças com o império romano oriental, contribuindo para a queda do Império Sassânida na Pérsia.
Curiosamente, enquanto diversas regiões enfrentavam crises sem precedentes, a Península Arábica experimentava um aumento nas chuvas, tornando-se um território mais fértil. Esse novo cenário favoreceu o surgimento de uma nova força política e religiosa: o Império Árabe, que, no século seguinte, se tornaria uma das civilizações mais influentes da história.
O ano de 536 d.C. continua sendo objeto de estudo e fascínio por parte de historiadores e cientistas, tanto por suas causas naturais como por suas repercussões sociais, geopolíticas e ambientais que moldaram profundamente o curso da história humana.