Como um engenheiro japonês criou o QR Code e revolucionou o mundo

Publicado em 27/04/25 às 07:42

Quando você entra em um restaurante e pede o cardápio, é provável que receba a orientação de escanear um QR Code com seu celular. Essa cena comum se repete em lojas de bairro, feiras e até em grandes outdoors. Popularizados após a pandemia, os QR Codes hoje são essenciais para a vida digital, especialmente no Brasil. Mas a origem desse quadrado preto e branco é uma história fascinante que remonta ao Japão dos anos 1990.

A inspiração para o QR Code surgiu quando Masahiro Hara jogava Go, um jogo de estratégia tradicional, durante seu trabalho na Denso Wave. Observando a disposição das pedras pretas e brancas no tabuleiro, Hara teve a ideia de criar um código capaz de armazenar mais informações e ser lido rapidamente — o que deu origem ao “Quick Response Code” (Código de Resposta Rápida).

Masahiro Hara criou o QR Code inspirado no jogo de tabuleiro “GO” / Imagem: Denso Wave

Antes do QR Code: as limitações dos códigos de barras

Já nos anos 1990, o uso de códigos de barras era comum no Japão e em outros países. A tecnologia, patenteada em 1949 por Joseph Woodland e Bernard Silver, usava linhas verticais para representar números. O formato atual, no entanto, só se consolidou nos anos 1970, quando o setor supermercadista dos Estados Unidos adotou o Universal Product Code (UPC), criado após anos de debates para unificar os padrões.

Apesar da inovação, os códigos de barras apresentavam limitações significativas. Além de armazenarem apenas cerca de 20 caracteres, qualquer dano físico comprometia a leitura dos códigos, prejudicando a eficiência no controle de inventário.

O nascimento do QR Code: mais velocidade e capacidade

Na indústria automobilística japonesa dos anos 1990, a necessidade de otimizar o rastreamento de peças crescia rapidamente. Um único pacote de componentes podia carregar até 10 códigos de barras diferentes. Hara e sua equipe perceberam a urgência de criar uma solução mais prática e eficiente.

O QR Code, com seu formato bidimensional, conseguiu superar os limites dos códigos tradicionais. Capaz de armazenar aproximadamente 7.000 caracteres e ser decodificado dez vezes mais rápido, ele trouxe uma revolução para a indústria.

Inicialmente, a novidade enfrentou desafios: scanners confundiam os novos códigos com textos ao redor. Foi observando os arranha-céus destacando-se na paisagem urbana, durante uma viagem de metrô, que Hara encontrou a solução: adicionar três pequenos quadrados nos cantos do QR Code para facilitar sua identificação, independentemente da posição ou danos parciais.

Padronização e disseminação mundial

A decisão da Denso Wave de liberar a tecnologia do QR Code sem cobrança de royalties foi crucial para sua disseminação global. Mesmo detendo as patentes, a empresa optou por torná-lo um padrão aberto, facilitando sua adoção em diversos setores industriais. Em 2000, o QR Code obteve certificação ISO (Organização Internacional de Padronização), especificamente a ISO/IEC 18004, o que impulsionou ainda mais sua utilização em escala global.

No Brasil, o QR Code começou a ganhar espaço gradativamente a partir da década de 2010, impulsionado por setores como eventos, marketing e meios de pagamento. Grandes redes varejistas, como Magazine Luiza e supermercados do grupo Pão de Açúcar, começaram a integrar QR Codes em campanhas promocionais e sistemas de compras. A popularização, no entanto, acelerou de forma significativa com a chegada do PIX — sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central do Brasil, lançado oficialmente em novembro de 2020, que incorporou o QR Code como uma das formas principais de pagamento.

Segundo dados do Banco Central, até o final de 2024, mais de 160 milhões de brasileiros já haviam realizado pelo menos uma transação usando o PIX, muitos deles por meio da leitura de QR Codes.

A nova vida dos QR Codes graças aos smartphones

Durante os anos 2010, enquanto parte do mundo ocidental via o QR Code como uma tecnologia ultrapassada, a China reescrevia seu destino. Com o avanço dos smartphones e aplicativos como WeChat e Alipay, os QR Codes se tornaram essenciais para pagamentos móveis, acesso a serviços públicos, transporte e promoções comerciais. O sucesso foi tanto que, segundo a Statista, mais de 90% dos usuários chineses de smartphone utilizaram QR Codes para pagamentos em 2023.

Essa tendência logo se espalhou para outros países emergentes, como o Brasil, onde o smartphone se tornou o principal meio de acesso à internet. De acordo com a pesquisa TIC Domicílios 2023, mais de 99% dos internautas brasileiros utilizam smartphones para se conectar à rede, criando o ambiente ideal para a popularização dos QR Codes no dia a dia, desde pagamentos de pequenas compras até acesso a cardápios de restaurantes e eventos culturais.

E o Japão?

Embora o QR Code tenha sido inventado no Japão, o país demorou a adotar amplamente pagamentos digitais. Culturalmente, o dinheiro em espécie ainda é preferido por muitos japoneses. Em 2019, cerca de 80% dos pagamentos no varejo japonês ainda eram feitos em dinheiro, segundo o Banco do Japão.

A pandemia, contudo, acelerou a busca por soluções de pagamento sem contato. Iniciativas do governo japonês, como programas de cashback para pagamentos digitais, começaram a estimular a adoção do QR Code. Empresas como PayPay e Rakuten Pay lideraram esse movimento, mas, mesmo assim, o Japão ainda caminha de forma mais lenta rumo a uma sociedade com pagamentos totalmente digitais em comparação com países como China, Coreia do Sul e o próprio Brasil.