Igreja Católica julgou o corpo de um papa morto em 897 d.C.
Por Sandro Felix
Publicado em 26/04/25 às 13:08
Em um dos episódios mais insólitos da história da Igreja Católica, o Papa Formoso, morto há nove meses, foi levado a julgamento póstumo em 897 d.C., durante o chamado Sínodo do Cadáver. O evento foi conduzido pelo então Papa Estêvão VI, na Basílica de São João de Latrão, em Roma.
O corpo de Formoso foi exumado, vestido com trajes papais e colocado em um trono improvisado para responder a acusações de perjúrio, violação de leis canônicas e usurpação do papado. Um diácono foi designado para falar em nome do cadáver durante o julgamento. Ao final da audiência, Formoso foi considerado culpado, seu papado foi declarado inválido e os três dedos de sua mão direita, usados para abençoar, foram cortados. O corpo foi posteriormente lançado no rio Tibre.
O julgamento refletia profundas tensões políticas da época. Formoso havia apoiado Arnulfo da Caríntia na luta pelo título de imperador do Sacro Império Romano-Germânico, contrariando os interesses de Lamberto de Espoleto e de seus aliados, incluindo Estêvão VI.
A reação popular em Roma foi intensa. Poucos meses após o Sínodo do Cadáver, Estêvão VI foi deposto, preso e morreu estrangulado. Seu sucessor, o Papa Teodoro II, anulou o julgamento, restaurou a honra de Formoso e ordenou a recuperação e sepultamento adequado do corpo na Basílica de São Pedro. Posteriormente, o Papa João IX proibiu formalmente qualquer outro julgamento de mortos.
O Sínodo do Cadáver permanece até hoje como um dos episódios mais bizarros e polêmicos da história da Igreja, simbolizando os excessos das disputas políticas e religiosas da Idade Média.