Apple acelera plano para transferir montagem de iPhones destinados aos EUA da China para a Índia até 2026
Por Sandro Felix
Publicado em 26/04/25 às 12:28
A Apple está promovendo uma das maiores mudanças em sua estratégia de produção global. Segundo fontes ouvidas pelo Financial Times, a gigante da tecnologia pretende transferir toda a montagem de iPhones destinados ao mercado norte-americano da China para a Índia até o final de 2026. A iniciativa surge em resposta direta ao aumento das tensões comerciais entre Estados Unidos e China e às altas tarifas aplicadas sobre produtos chineses durante a administração Trump.
Há quase vinte anos, a Apple estruturou sua cadeia de produção de iPhones tendo a China como pilar central, aproveitando a infraestrutura robusta e a mão de obra qualificada do país. Atualmente, cerca de 80% dos mais de 60 milhões de iPhones vendidos anualmente nos EUA são montados em fábricas chinesas, principalmente por parceiros como a Foxconn. Contudo, tarifas que chegam a 145% sobre importações chinesas forçaram a Apple a acelerar seus planos de diversificação.
A Índia desponta como a peça-chave dessa reestruturação. Desde 2017, a Apple já vinha expandindo gradualmente sua presença industrial no país, inicialmente com modelos mais acessíveis e, a partir de 2023, com seus principais dispositivos. A transição, no entanto, exigirá um salto expressivo na produção: será necessário dobrar a fabricação anual de iPhones no país, passando dos atuais 40 milhões para mais de 80 milhões de unidades, o que implicará em grandes investimentos e expansão das instalações locais.
A urgência da movimentação ficou evidente recentemente, quando a empresa, antecipando a entrada em vigor de novas tarifas, despachou por via aérea cerca de 1,5 milhão de iPhones montados na Índia para os EUA, com apoio de autoridades aeroportuárias indianas para agilizar a liberação alfandegária.
Apesar dos avanços, o caminho apresenta obstáculos. Produzir iPhones na Índia ainda é de 5% a 10% mais caro que na China, em parte devido a taxas de importação sobre componentes e à necessidade de importar peças pré-montadas do território chinês. Além disso, a infraestrutura de fabricação indiana ainda enfrenta dificuldades para atender aos rigorosos padrões de qualidade da Apple, com índices de rendimento inferiores aos observados em fábricas chinesas.
Outro desafio é que muitos dos componentes essenciais para os iPhones continuam vindo de fornecedores chineses, mantendo a China como elo vital da cadeia de suprimentos da empresa.
O ambiente comercial instável criado pela estratégia tarifária dos Estados Unidos adiciona mais uma camada de complexidade. Apesar de smartphones terem sido temporariamente poupados das tarifas mais severas, uma taxa de 20% ainda incide sobre importações da China, e a ameaça de novas sanções permanece. Por outro lado, produtos indianos enfrentam atualmente uma tarifa suspensa de 26% para exportação aos EUA, fruto de negociações em curso.
A decisão de realocar a produção de iPhones para a Índia representa um dos movimentos mais ousados da história recente da Apple, marcando uma tentativa ambiciosa de remodelar sua cadeia global de produção diante de um cenário internacional cada vez mais incerto.