Financial Times destaca Brasil como maior beneficiado da guerra comercial EUA-China
Por Sandro Felix
Publicado em 15/04/25 às 17:15
A escalada da guerra comercial entre os Estados Unidos e a China, que se intensificou no começo desse mês com as tarifas impostas por Donald Trump, está abrindo novas oportunidades para o Brasil no cenário global de exportações agrícolas. Com os norte-americanos enfrentando barreiras comerciais cada vez mais rígidas, os produtores brasileiros têm conseguido ocupar o espaço deixado por um dos maiores fornecedores globais de alimentos, especialmente em mercados estratégicos como o chinês e o europeu.
Segundo analistas ouvidos pelo Financial Times, o Brasil desponta como o maior beneficiado nesse embate entre gigantes. A reportagem destaca que, ao longo do primeiro trimestre deste ano, as exportações brasileiras de carne bovina para a China aumentaram em um terço em comparação com o mesmo período de 2024. Já as vendas de carne de frango saltaram 19% somente em março. O avanço é reflexo direto das barreiras impostas pela China aos produtos norte-americanos, o que impulsionou uma mudança na cadeia global de suprimentos.
Um dos exemplos mais significativos está na soja. As importações chinesas da soja brasileira aumentaram consideravelmente, superando em US$ 1,15 bilhão as compras do produto dos Estados Unidos no mercado global. De acordo com Rodrigo Alvim, diretor internacional do Grupo Minas Portuário, a China tem se movimentado com rapidez para assegurar não apenas a soja, mas também outras commodities brasileiras, garantindo seu abastecimento em meio à instabilidade comercial com os EUA.
Enquanto o Brasil se consolida como fornecedor confiável, os efeitos da guerra comercial são cada vez mais sentidos nos Estados Unidos. A China, que antes era responsável por 90% das compras de sorgo e por cerca de 50% das compras de soja americana, reduziu drasticamente suas importações: em janeiro, houve uma queda de 54% em relação ao mesmo mês de 2024. Em meio à crise, a Associação Americana de Soja chegou a enviar uma carta aberta ao presidente Trump, implorando por uma reaproximação com Pequim.
Além das restrições à soja, Pequim também bloqueou cerca de US$ 1,6 bilhão em importações de carne bovina norte-americana. Em paralelo, limitou embarques de outros grãos, como trigo, milho e sorgo, o que pode levar a uma paralisação quase total das exportações até o mês de maio, segundo fontes ouvidas pelo jornal britânico.
A movimentação chinesa tem sido acompanhada de perto pela União Europeia. O bloco europeu também prepara medidas de retaliação contra os EUA, com a proposta de taxar em 25% a soja, a carne bovina e as aves norte-americanas. Essa iniciativa abre espaço para que o Brasil amplie sua presença no mercado europeu, especialmente no fornecimento de proteína para ração animal.
Com esse novo cenário, surge uma preocupação: será que o Brasil terá capacidade de produção suficiente para suprir simultaneamente a demanda da China e da Europa? Segundo Jim Sutter, presidente-executivo do Conselho de Exportação de Soja dos EUA, o risco é que a grande oferta brasileira seja rapidamente absorvida, caso os dois mercados concentrem suas compras no país.
Apesar desse desafio, analistas consideram o momento como extremamente favorável para os produtores do Brasil e da Argentina. Para Ishan Bhanu, da consultoria Kpler, a guerra comercial funcionou como um empurrão inesperado que ajudou os exportadores sul-americanos a ganharem espaço e confiança internacional. Ele afirma que o Brasil tem, em parte, a agradecer a Trump por ter aberto caminho para que o país se tornasse um fornecedor-chave em mercados antes dominados pelos americanos.
Os números refletem essa transformação: a participação dos Estados Unidos nas importações alimentícias da China caiu de 20,7% em 2016 para 13,5% em 2023. Enquanto isso, o Brasil viu sua fatia aumentar de 17,2% para 25,2% no mesmo período. Trata-se de uma mudança estrutural no comércio global de alimentos — e o Brasil, ao que tudo indica, está cada vez mais preparado para ocupar esse novo papel de destaque.