De fenômeno a dilema: desgaste do K-pop acende alerta na indústria

Publicado em 14/04/25 às 08:11

O K-pop, que por anos dominou as paradas internacionais com seu brilho impecável e ídolos cuidadosamente lapidados, começa a mostrar sinais de desgaste. Enquanto o gênero atinge um alcance global sem precedentes, especialistas e fãs apontam para uma crise de identidade que desafia as estruturas da indústria musical sul-coreana.

Nos últimos anos, grupos como BTS, Blackpink, TXT e Twice conquistaram os maiores palcos do mundo, quebrando barreiras culturais e linguísticas. No entanto, essa expansão trouxe consequências inesperadas: a perda gradual das raízes coreanas em prol de uma estética mais universal, que hoje enfrenta críticas dentro e fora da Coreia do Sul.

Segundo dados da Korea Music Content Association, as vendas de álbuns físicos no país caíram 19% em 2024 — uma retração que contrasta com os anos de crescimento vertiginoso. A pausa de grupos como BTS, devido ao serviço militar obrigatório, e a aposta de artistas em carreiras solo internacionais, como no caso das integrantes do Blackpink, deixaram um vácuo criativo difícil de preencher.

Além disso, o uso crescente do inglês nas letras e as colaborações com artistas ocidentais como Bruno Mars e The Weeknd têm causado desconforto entre os fãs coreanos mais antigos. Para muitos, o K-pop perdeu o charme cultural que o tornava único.

É como se estivéssemos assistindo a uma versão genérica do que antes era autêntico. A essência coreana se diluiu, afirma Ji-Hye Park, professora de cultura pop na Universidade de Hanyang.

Grupo K-pop BTS / Imagem: Reprodução

Em paralelo, outros gêneros vêm ganhando espaço. O rap coreano, conhecido por suas letras críticas e maior liberdade criativa, tem subido nas paradas nacionais. Artistas como Colde e BIBI mostram que o público sul-coreano busca sons mais conectados à realidade local.

O modelo de gestão das estrelas do K-pop também está sob escrutínio. Em 2022, o grupo NewJeans rompeu com sua agência, dando início a uma série de debates sobre direitos trabalhistas e autonomia artística. O caso expôs os bastidores muitas vezes invisíveis de uma indústria que, apesar da imagem perfeita, esconde pressões intensas e conflitos internos.

Analistas sugerem que o K-pop está passando por um processo natural de maturação. “Talvez não estejamos testemunhando o fim do K-pop, mas sim o nascimento de uma nova fase — menos centrada na exportação de um produto polido e mais na criação de música com identidade múltipla,” explica o crítico cultural Min-Jun Lee.

Enquanto isso, empresas como a Hybe, maior conglomerado de entretenimento do país, enfrentam prejuízos financeiros e tentam se reinventar diante de um mercado em transformação.

Apesar das incertezas, o legado do K-pop como força global permanece inegável. Mas a pergunta que paira no ar é clara: será que o gênero conseguirá se reinventar sem perder sua alma?