O custo do protecionismo: por que Trump recuou nas tarifas?
Por Sandro Felix
Publicado em 10/04/25 às 08:10
Em uma mudança estratégica significativa, o governo Trump anunciou uma pausa de 90 dias na imposição das chamadas tarifas “recíprocas” sobre quase todas as importações dos Estados Unidos. A medida, no entanto, não se estende à China, que continuará enfrentando tarifas que podem atingir cerca de 125%.
A decisão representa um recuo parcial na escalada de um conflito comercial mais amplo, que vinha se intensificando ao longo dos últimos meses. Durante o período de suspensão, a maioria dos países enfrentará uma tarifa base de 10%. Entretanto, a Casa Branca foi categórica ao afirmar que as tarifas sobre produtos chineses continuarão inalteradas.
A motivação por trás da mudança de curso está ancorada em uma preocupação crescente com os impactos econômicos internos. Modelos macroeconômicos utilizados por especialistas indicam que os custos da guerra comercial poderiam ser profundos e duradouros para a economia americana.
Cenário pré-pausa indicava forte retração econômica nos EUA
De acordo com simulações feitas antes do anúncio da pausa, o plano tarifário original resultaria em quedas significativas nos principais indicadores econômicos dos Estados Unidos até 2025. O consumo real, um dos melhores indicadores do padrão de vida da população, cairia 2,4%, enquanto o PIB sofreria redução de 2,6%. O emprego recuaria 2,7% e os investimentos reais despencariam 6,6%.
Esses números evidenciam o alto custo da política tarifária. Em um país com taxa de desemprego em torno de 4,2%, os modelos apontam que para cada três desempregados, dois novos se somariam à estatística devido à retração provocada pelas tarifas.
Mesmo se o recuo atual for mantido de forma permanente, os danos ainda seriam significativos. No cenário “pós-pausa”, o consumo real projetado cai 1,9% em 2025, com investimento recuando 4,8% e o emprego encolhendo 2,1%. Embora mais leves, os efeitos permanecem expressivos e afetam diretamente a vida cotidiana da população americana.
China permanece como alvo principal e o Brasil pode se beneficiar com essa disputa
A imposição de tarifas elevadas pelos EUA sobre produtos chineses levou a China a retaliar com aumentos tarifários sobre produtos americanos. Essa dinâmica abre oportunidades para o Brasil, principalmente no fornecimento de commodities agrícolas. Especialistas apontam que produtos como soja e carne bovina, nos quais o Brasil já possui forte presença no mercado chinês, podem ter sua demanda ampliada. Felippe Serigati, pesquisador do FGV Agro, destaca que o Brasil disputa com os EUA o mercado global de alguns produtos, e a migração da demanda chinesa anteriormente suprida pelos americanos pode favorecer as exportações brasileiras em termos de volume.
Enquanto o agronegócio brasileiro pode colher benefícios com a reconfiguração das cadeias de suprimento globais, outros setores enfrentam desafios. A indústria brasileira, por exemplo, pode ser impactada negativamente pela maior concorrência e pela volatilidade nos mercados internacionais. Economistas alertam que, embora existam oportunidades, é crucial que o Brasil adote estratégias que maximizem os ganhos e minimizem os riscos associados às tensões comerciais globais.
O governo brasileiro, por sua vez, tem adotado uma postura cautelosa. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou que não vê necessidade de anunciar medidas tarifárias em resposta às ações dos EUA neste momento, enfatizando a importância da prudência em meio às tensões comerciais entre Washington e Pequim.