Emergência verde | Cientistas alertam para colapso ecológico do maior lago tropical do mundo
Por Sandro Felix
Publicado em 07/04/25 às 10:31
Um fenômeno ambiental alarmante está chamando a atenção de cientistas e autoridades nos três países que compartilham o Lago Vitória – Uganda, Quênia e Tanzânia. O maior lago tropical do mundo, conhecido por sua biodiversidade e importância econômica, está sendo coberto por uma coloração esverdeada intensa. A mudança, longe de ser inofensiva, representa um risco direto para milhões de pessoas que dependem do lago para água potável, alimentação e sustento.
O que está por trás da coloração esverdeada?
A causa é a proliferação de flora microscópica conhecida como cianobactérias, desencadeada por um processo chamado eutrofização. Esse fenômeno ocorre quando corpos d’água recebem uma carga excessiva de nutrientes – principalmente nitrogênio e fósforo – provenientes de atividades humanas, como escoamento agrícola, esgoto doméstico e resíduos industriais.
Além disso, práticas como o desmatamento com queimadas e emissões atmosféricas industriais contribuem indiretamente, depositando nutrientes nas águas do lago através da chuva. E, segundo especialistas da Universidade de Michigan e da Bowling Green State University, as mudanças climáticas agravam ainda mais o cenário, elevando as temperaturas da água e intensificando as chuvas que arrastam mais nutrientes para o lago.
Riscos à saúde e à segurança alimentar
A proliferação das cianobactérias, popularmente chamada de “florescimento de algas nocivas”, é mais do que um problema estético. Estudos recentes detectaram grandes concentrações de microcistina – uma toxina hepática produzida por algas do gênero Microcystis – especialmente na região do Golfo de Winam, no Quênia. A substância pode causar danos ao fígado e é potencialmente letal para humanos, animais domésticos e vida selvagem.
Além da ameaça direta à saúde, o Lago Vitória também enfrenta uma crise alimentar. As algas consomem o oxigênio da água, provocando a morte de peixes e outros organismos aquáticos. Isso compromete a pesca, uma das principais fontes de renda e alimentação para as comunidades locais. Em áreas como o Golfo de Mwanza, na Tanzânia, pesquisadores já observaram alterações drásticas na cadeia alimentar aquática, impulsionadas pela eutrofização induzida por humanos.
O cenário mais preocupante se encontra nas regiões mais profundas do Lago Vitória, onde os níveis de oxigênio estão tão baixos que não suportam mais nenhuma forma de vida. Essas áreas já são chamadas de “zonas mortas”, um sinal claro de colapso ambiental.
Há solução?
Embora o combate às mudanças climáticas seja um desafio global de longo prazo, medidas locais podem ajudar a frear a degradação do Lago Vitória. Entre as principais ações recomendadas estão:
- Melhorias no tratamento de esgoto e na gestão agrícola;
- Reflorestamento de áreas desmatadas;
- Criação de zonas de proteção ambiental;
- Monitoramento contínuo das cianobactérias e emissão de alertas para a população.
O estudo liderado pelas universidades americanas já começou a oferecer dados valiosos sobre quais espécies de cianobactérias são mais perigosas, permitindo intervenções mais rápidas e eficazes por parte das autoridades de saúde e meio ambiente.