Novo ‘fungo zumbi’ infecta e controla aranhas que vive em cavernas
Por Sandro Felix
Publicado em 03/02/25 às 17:04
Em um achado que parece saído diretamente de um filme de terror, cientistas descobriram um fungo parasita que infecta aranhas de caverna na Irlanda, manipulando seus comportamentos para facilitar a propagação de seus esporos. O patógeno recém-identificado tem o potencial de reescrever nossa compreensão sobre interações entre fungos e hospedeiros no mundo natural.
A primeira evidência desse fungo assustador veio à tona em 2021, quando uma equipe de TV da BBC encontrou uma aranha coberta por um crescimento fúngico enquanto explorava um antigo depósito de pólvora abandonado na Irlanda do Norte. Após análise detalhada por especialistas, a aranha foi identificada como Metellina merianae, uma espécie que habita cavernas. Já o fungo revelou-se uma nova espécie e foi nomeado em homenagem ao renomado naturalista David Attenborough: Gibellula attenboroughii.
Expedições subsequentes revelaram que a infecção não era um caso isolado. Aranhas afetadas foram encontradas em tetos e paredes de cavernas tanto na Irlanda do Norte quanto na República da Irlanda. Pesquisadores também identificaram evidências de infecções similares em registros científicos antigos de outras partes das Ilhas Britânicas.
Um fungo que transforma aranhas em ferramentas para espalhar esporos
O comportamento das aranhas infectadas sugere que o fungo é capaz de “hackear” seus cérebros. Normalmente, essas aranhas são tímidas e preferem permanecer escondidas em suas teias dentro das cavernas. No entanto, ao serem infectadas, elas abandonam seus refúgios e se deslocam para superfícies expostas, como paredes e tetos.
Uma vez em posição, as aranhas morrem, tornando-se um ambiente perfeito para o crescimento do fungo. Após algum tempo, o corpo da aranha é tomado pelo patógeno, que libera esporos no ar. As correntes de ar dentro das cavernas ajudam a espalhar esses esporos, potencializando a infecção em novos hospedeiros e perpetuando o ciclo sinistro da infecção.
A estratégia do Gibellula attenboroughii lembra outro fungo famoso no mundo dos parasitas: Ophiocordyceps, que infecta formigas e as transforma em “zumbis” antes de matá-las e usar seus corpos como base para dispersão de esporos. Se esse enredo parece familiar, é porque foi popularizado na cultura pop pelo jogo e série de TV The Last of Us, que explora uma infecção fúngica similar em humanos.
O mistério da manipulação fúngica
Ainda não se sabe exatamente como o fungo manipula as aranhas, mas os pesquisadores planejam investigar mais a fundo os metabólitos produzidos pelo patógeno. Esses compostos químicos podem conter pistas sobre o mecanismo por trás do controle neural exercido pelo fungo, semelhante ao que ocorre com outros parasitas conhecidos por modificar o comportamento de seus hospedeiros.
Essa descoberta se junta a uma longa lista de histórias aterrorizantes do mundo dos insetos e aracnídeos. Por exemplo, algumas vespas parasitas são conhecidas por controlar aranhas e forçá-las a construir teias especiais para suas larvas, que eventualmente devoram o hospedeiro. Por outro lado, as aranhas também têm seus próprios truques sinistros: certas espécies já foram observadas manipulando vagalumes capturados, fazendo com que pisquem em padrões de acasalamento para atrair mais presas à teia.
O estudo detalhando a descoberta do Gibellula attenboroughii foi publicado na revista científica Fungal Systematics and Evolution. Enquanto cientistas seguem investigando como esse fungo afeta suas vítimas, uma coisa é certa: o mundo natural está repleto de histórias que desafiam até mesmo as melhores narrativas de terror.