Cientistas encontram o misterioso vulcão que quase destruiu o mundo em 1831

Publicado em 04/01/25 às 14:10

Um dos maiores mistérios vulcânicos da história recente foi solucionado por uma equipe internacional de pesquisadores liderada pela Universidade de St Andrews, na Escócia. Após quase dois séculos de especulação, cientistas confirmaram que a erupção que causou um resfriamento global em 1831 teve origem no vulcão Zavaritskii, localizado na ilha de Simushir, nas disputadas Ilhas Curilas, entre o Japão e a Rússia. O evento lançou enormes quantidades de partículas na atmosfera, provocando uma queda significativa das temperaturas globais e contribuindo para crises agrícolas e sociais em diversas partes do mundo.

A descoberta foi possível graças ao uso de uma técnica revolucionária que envolve a análise de núcleos de gelo polares. Os pesquisadores encontraram fragmentos microscópicos de cinza vulcânica preservados em camadas de gelo tanto na Groenlândia quanto na Antártica. Ao comparar essas partículas com depósitos conhecidos de diversos vulcões, os cientistas encontraram uma correspondência exata com o material expelido pelo vulcão Zavaritskii. O estudo, que envolveu também a colaboração de pesquisadores do Japão e da Rússia, é considerado um marco na vulcanologia e lança nova luz sobre o impacto de erupções em grande escala no clima global.

Vista aérea da Ilha Simushir / Imagem: Oleg Dirksen – PA Wire

A erupção do Zavaritskii em 1831, até então desconhecida da maioria dos cientistas, lançou uma quantidade significativa de gases sulfurosos na atmosfera, desencadeando o fenômeno conhecido como “inverno vulcânico”. Esse processo ocorre quando partículas de enxofre refletem a luz solar de volta ao espaço, diminuindo a quantidade de radiação que atinge a superfície terrestre e, consequentemente, resfriando o planeta. De acordo com o estudo, as temperaturas globais caíram em média 1°C nos anos que se seguiram à erupção, causando impactos devastadores em várias regiões. Colheitas foram perdidas na Europa e na América do Norte, resultando em fome e instabilidade social.

Will Hutchison, o principal autor da pesquisa, destacou que essa descoberta preenche uma lacuna histórica importante e reforça a necessidade de entender eventos vulcânicos passados para prever futuros desastres naturais.

Identificar a origem dessa erupção é crucial para nossa compreensão sobre como o clima pode ser influenciado por eventos vulcânicos. Isso também nos lembra que regiões remotas e pouco monitoradas, como as Ilhas Curilas, podem ser fontes de erupções significativas que afetam todo o planeta, afirmou o cientista.

História e geopolítica das Ilhas Curilas

As Ilhas Curilas, onde está localizado o vulcão Zavaritskii, têm uma longa história de disputas territoriais. O arquipélago é formado por cerca de 56 ilhas vulcânicas que se estendem entre a península de Kamchatka, na Rússia, e a ilha japonesa de Hokkaido. Desde o final da Segunda Guerra Mundial, essas ilhas são alvo de uma disputa entre Japão e Rússia, que reivindicam sua soberania.

Durante a Guerra Fria, a ilha de Simushir, onde ocorreu a erupção de 1831, foi usada pela União Soviética como uma base secreta de submarinos nucleares. Localizada em uma cratera vulcânica inundada, a base era praticamente invisível do mar, o que a tornava uma instalação estratégica importante para o regime soviético. Hoje, a ilha permanece desabitada, mas continua sendo um ponto de interesse geopolítico e científico.