Lua gelada de Urano, Miranda, pode esconder oceano subterrâneo e ampliar chances de vida extraterrestre

Publicado em 03/11/24 às 06:39

Por décadas, Miranda – a pequena e gelada lua de Urano – foi vista como nada mais que um bloco congelado de rocha e gelo. Contudo, novas descobertas da Universidade Johns Hopkins estão mudando essa percepção de forma radical. A pesquisa sugere que Miranda pode, na verdade, abrigar um oceano subterrâneo, com potencial até para sustentar formas de vida.

“Encontrar indícios de um oceano dentro de um objeto tão pequeno como Miranda é extremamente surpreendente”, afirmou Tom Nordheim, cientista planetário do Laboratório de Física Aplicada da Johns Hopkins, que colaborou no estudo.

Miranda é a menor das principais luas de Urano, com um diâmetro de apenas 470 quilômetros – aproximadamente um sétimo do tamanho da lua da Terra. Desde que a espaçonave Voyager 2 passou por lá em 1986, capturando diversas imagens, acreditava-se que Miranda, assim como as outras luas de Urano, fosse composta majoritariamente de gelo e rocha.

Recentemente, porém, cientistas revisitaram essas imagens e dados de décadas atrás, aplicando novas técnicas de modelagem e um olhar renovado. Ao mapear a superfície acidentada e fortemente craterada de Miranda e comparar padrões de alinhamento, os pesquisadores construíram uma hipótese convincente de que a lua pode esconder uma camada líquida abaixo de sua crosta de gelo.

De acordo com os modelos da pesquisa, Miranda teria abrigado um oceano subterrâneo com cerca de 100 quilômetros de profundidade, localizado sob uma camada congelada de aproximadamente 30 quilômetros de espessura, entre 100 e 500 milhões de anos atrás. Ainda mais surpreendente é a possibilidade de que esse oceano tenha sido suficientemente quente para se manter em estado líquido, apesar da distância extrema de Miranda em relação ao Sol.

Se essa teoria estiver correta, a fonte de aquecimento interno de Miranda pode estar relacionada a um fenômeno conhecido como “ressonância orbital”, uma espécie de “dança gravitacional” com as outras luas de Urano. Esse processo geraria calor por fricção, evitando que a lua congelasse completamente ao longo do tempo. Segundo os pesquisadores, é possível que ainda exista algum líquido sob a superfície de Miranda.

Foto da lua Miranda capturada pela espaçonave Voyager 2 durante sua passagem por Urano / Imagem: Nasa – Reprodução

Miranda também não seria a única no que os cientistas chamam de “luas oceânicas”. A NASA recentemente lançou a missão Europa Clipper, que está a caminho de investigar um oceano subterrâneo suspeito na lua Europa, de Júpiter. Essa missão ambiciosa percorrerá 2,9 bilhões de quilômetros ao longo de seis anos para alcançar seu destino. No ano passado, a NASA também analisou as luas de Urano – Ariel, Umbriel, Titânia e Oberon – em busca de sinais semelhantes de camadas de água sob a superfície.

Embora a NASA ainda não tenha uma missão planejada especificamente para Miranda, essas novas descobertas podem aumentar o interesse em enviar um explorador robótico para investigar a lua de perto.

Vale destacar que outras luas no sistema solar, como Encélado e Titã, em Saturno, também são candidatos a abrigar oceanos internos, pois apresentam características geológicas que sugerem a presença de água líquida sob suas superfícies congeladas. Encélado, por exemplo, chamou a atenção dos cientistas quando a sonda Cassini detectou plumas de vapor d’água e partículas de gelo sendo expelidas de fissuras próximas ao seu polo sul. Essas plumas indicam que há uma fonte de água líquida em seu interior, possivelmente um oceano subterrâneo que se estende por toda a lua.

Titã, por sua vez, é única por possuir uma atmosfera densa e lagos de metano e etano em sua superfície, além de indícios de um oceano de água e amônia sob sua crosta de gelo. A complexidade química de Titã, junto com seu potencial para abrigar um ambiente aquático interno, faz com que essa lua seja um dos alvos mais promissores na busca por vida fora da Terra.