Ragnarök: Novas evidências sugerem que o apocalipse viking pode ter acontecido por volta do ano 536 d.C.
Por Sandro Felix
Publicado em 01/11/24 às 16:31
Pesquisas recentes do Museu Nacional da Dinamarca sugerem que o evento catastrófico descrito como o “Fimbulwinter” – o “Grande Inverno” na mitologia nórdica – pode ter uma base histórica real. Este longo inverno, de acordo com as lendas nórdicas, foi um prenúncio do Ragnarök, o apocalipse que levaria à destruição dos deuses e do mundo como o conhecemos. No entanto, evidências científicas agora apontam que este mito pode ecoar uma catástrofe climática de proporções épicas que atingiu o Hemisfério Norte por volta do ano 536 d.C., considerada uma das piores épocas da história humana.
Estudos indicam que um ou mais vulcões em erupção na região desencadearam um “inverno vulcânico” global, causado pela liberação de gases de enxofre e cinzas que bloquearam a luz solar. Durante mais de uma década, temperaturas caíram drasticamente, e o mundo passou por condições extremas – inclusive com registros de neve no verão na China e quedas de temperatura de até 2,5°C na Europa. Em várias partes do planeta, a agricultura sofreu, provocando escassez de alimentos e doenças, enquanto o Egito vivenciou a peste bubônica pouco depois do desastre.
O pesquisador Morten Fischer Mortensen, do Museu Nacional da Dinamarca, destacou o impacto devastador do evento sobre o país. “Pela primeira vez, conseguimos demonstrar que talvez o maior desastre climático da história humana afetou a Dinamarca de maneira catastrófica”, declarou Mortensen em um comunicado.
Evidências arqueológicas e botânicas revelam o impacto na Escandinávia
Pesquisas com mais de 100 amostras de anéis de árvores de carvalho, datadas do século VI, indicaram que o crescimento das árvores foi quase inexistente nos verões de 539 a 541 d.C., um sinal claro das dificuldades climáticas enfrentadas. Segundo Mortensen, quando as árvores não conseguem crescer, as colheitas também falham, causando um impacto drástico numa sociedade que dependia fortemente da agricultura.
Outros estudos indicam um declínio acentuado na produção de grãos na região, com terras abandonadas e florestas tomando o lugar de antigas áreas cultivadas. “Na Noruega e na Suécia, estima-se que até metade da população tenha perecido. E não é improvável que algo semelhante tenha acontecido na Dinamarca. Observar esses anéis anuais tão estreitos me dá arrepios, porque sei a quantidade de sofrimento e morte que representam”, afirmou Mortensen.
Tesouros arqueológicos: Sacrifícios para o retorno do sol?
Arqueólogos descobriram tesouros valiosos, como os Chifres de Ouro e o Tesouro de Vindelev, datados desse período de incerteza, mas há uma escassez surpreendente de novos artefatos em ouro nos séculos seguintes. Uma possível interpretação é que estes objetos de valor tenham sido oferecidos aos deuses em um último apelo para a restauração do sol e das condições de vida.
Além disso, análises dos grãos cultivados indicam que os sobreviventes tiveram que adaptar sua agricultura, com o centeio se tornando mais comum por ser menos dependente de luz solar. Mortensen até sugere que a tradição dinamarquesa de pão de centeio possa ter surgido como uma resposta a esta crise climática, servindo como uma garantia contra futuras dificuldades.
A lenda do Fimbulwinter: Eco de uma tragédia real?
Embora as evidências científicas não possam confirmar de forma absoluta que o Fimbulwinter se refere a este desastre, a coincidência é impressionante. “Os mitos podem ser fruto da imaginação, mas também podem conter ecos de uma verdade distante. Várias pessoas já especularam sobre uma conexão entre o Fimbulwinter e o desastre climático do século VI, e agora podemos afirmar que existe uma grande correspondência com o que podemos comprovar cientificamente”, concluiu Mortensen.