Passagem de estrela alienígena pode ter causado estranhezas na órbita dos corpos distantes do sistema solar, sugere estudo
Por Sandro Felix
Publicado em 12/09/24 às 16:11
Nos confins do nosso sistema solar, além da órbita de Netuno, existe uma região caótica e misteriosa. É lá que se encontra a população de Objetos Transnetunianos (TNOs), que inclui planetas anões como Plutão e Sedna, além de milhares de pequenos corpos rochosos e gelados, como Arrokoth. No entanto, muitos desses objetos exibem comportamentos peculiares, que intrigam os cientistas há anos.
Alguns desses TNOs possuem órbitas excêntricas e altamente alongadas. Outros seguem trajetórias muito inclinadas, subindo e descendo em relação ao plano orbital onde a maioria dos outros corpos se encontra. Há até mesmo aqueles que orbitam ao contrário, movendo-se na direção oposta à maioria dos objetos no sistema solar.
Essas peculiaridades têm levado astrônomos a sugerirem a existência de um Nono Planeta — um corpo celeste grande, com uma massa semelhante ou maior que Marte, cuja influência gravitacional poderia explicar tais anomalias. No entanto, apesar das buscas intensivas, nenhuma evidência direta desse misterioso planeta foi encontrada até agora.
No entanto, uma nova hipótese vem à tona apresentada por uma equipe de astrônomos dos Países Baixos. Eles sugerem que essas anomalias podem ser explicadas por um encontro próximo com outra estrela, ocorrido bilhões de anos atrás. Para testar essa ideia, o time realizou mais de 3.000 simulações computacionais, modelando o que acontece quando estrelas de diferentes massas passam por discos de planetesimais, como os encontrados nas extremidades do sistema solar.
Os resultados das simulações foram surpreendentes. De acordo com Amith Govind, coautor do estudo, “a melhor correspondência que encontramos para explicar o comportamento atual do sistema solar externo envolve uma estrela um pouco menor que o nosso Sol — com cerca de 80% da sua massa”. Essa estrela teria passado a aproximadamente 16,5 bilhões de quilômetros (ou 110 unidades astronômicas) do Sol, o que equivale a cerca de quatro vezes a distância de Netuno.
Embora essa distância possa parecer enorme em termos terrestres, no contexto cósmico é um verdadeiro “fio de cabelo”. Para se ter uma ideia, é mais perto do que as sondas Voyager, que atualmente estão a mais de 136 vezes a distância entre a Terra e o Sol. Antes desta descoberta, o encontro mais próximo conhecido com outra estrela era o da Estrela de Scholz, que passou a mais de 50.000 unidades astronômicas de distância.
Essa “raspada” cósmica poderia ter deixado marcas significativas no sistema solar. De acordo com Simon Portegies Zwart, também coautor do estudo, a passagem de uma estrela tão próxima poderia não apenas ter causado as órbitas estranhas dos TNOs que vemos hoje, mas também ter ejetado muitos outros corpos para fora do sistema solar. Ao mesmo tempo, alguns objetos poderiam ter sido empurrados para regiões mais internas, onde possivelmente ainda residem.
Alguns desses objetos podem ter sido capturados pelos planetas gigantes como luas, explicou Zwart.
Isso explicaria por que os planetas exteriores do nosso sistema solar possuem dois tipos diferentes de luas.
Embora o cenário ainda não tenha sido confirmado, ele oferece uma explicação atraente para vários mistérios. A passagem de uma estrela poderia explicar tanto as órbitas excêntricas dos TNOs quanto a aparente ausência de um Nono Planeta, além de esclarecer a origem de algumas luas dos planetas gigantes gasosos.
A resposta definitiva para essa hipótese pode estar a caminho nos próximos anos, quando o Observatório Vera C. Rubin entrar em operação. Este telescópio está projetado para detectar objetos transientes e deve encontrar dezenas de milhares de novos corpos pequenos nos confins do sistema solar. Se muitos desses corpos exibirem órbitas excêntricas ou retrógradas, isso poderá fortalecer ainda mais a ideia de um encontro estelar no passado distante. Ou, quem sabe, ele poderá finalmente encontrar o tão procurado Planeta Nove.
O estudo completo sobre esta nova teoria foi publicado em duas importantes revistas científicas: Nature Astronomy e The Astrophysical Journal Letters.