Venezuela acaba de se tornar o primeiro país a perder todas as suas geleiras por conta do aquecimento global
Por Sandro Felix
Publicado em 08/05/24 às 16:58
Em um momento sombrio para as questões climáticas globais, a Venezuela acaba de presenciar a total extinção de seu último glaciar, tornando-se o primeiro país no mundo a perder completamente todos os seus corpos de gelo. No início do século XX, mais precisamente em 1910, a Venezuela era lar de seis imponentes glaciares, que juntos cobriam uma extensa área de 1.000 quilômetros quadrados. Essas massas de gelo, porém, foram reduzidas a fragmentos insignificantes que já não cumprem os critérios para serem classificados como glaciares.
Até 2011, cinco desses glaciares já haviam desaparecido. Esses incluíam glaciares icônicos como o Mucubají, o Concha de Obispo, o El Toro, o Verde e o Espejo, todos situados nas montanhas da Cordilheira Andina venezuelana. O último remanescente, o glaciar Humboldt, também conhecido como La Corona, localizado no Parque Nacional Sierra Nevada, agora foi reclassificado como um campo de gelo devido à sua drástica redução.
Na Venezuela, não há mais glaciares, declarou o professor Julio Cesar Centeno, da Universidade dos Andes (ULA), em entrevista à AFP em março.
O que resta é apenas um pedaço de gelo que equivale a 0,4% do seu tamanho original.
O La Corona, que outrora se estendia por 4,5 quilômetros quadrados, agora se encontra reduzido a menos de 0,02 quilômetros quadrados (2 hectares). Segundo padrões internacionais, um corpo de gelo precisa ter pelo menos 0,1 quilômetro quadrado (10 hectares) para ser considerado um glaciar.
Pesquisas recentes revelam que entre 1953 e 2019, a cobertura glacial na Venezuela diminuiu em impressionantes 98%. Após 1998, o ritmo de perda de gelo intensificou-se, alcançando um pico de aproximadamente 17% ao ano a partir de 2016. Em 1998, La Corona ainda cobria cerca de 0,6 quilômetros quadrados, mas até 2015, já estava à beira de perder seu status de glaciar.
Em dezembro de 2023, a última visita de uma equipe liderada por Luis Daniel Llambi, pesquisador da ULA, constatou que La Corona havia perdido cerca de dois hectares de gelo desde 2019, reduzindo-se de quatro hectares para menos de dois. No mesmo mês, o governo tentou uma medida desesperada ao cobrir o glaciar Humboldt com um manto geotêxtil, esperando preservar o pouco que restava. Essa iniciativa não apenas falhou, mas também gerou críticas severas de ambientalistas, que apontaram o risco de contaminação por microplásticos resultantes da degradação do material, infiltrando-se no solo, nas águas e eventualmente no ar, tornando-se parte da cadeia alimentar e respiratória humana.
A desaparição dos glaciares venezuelanos não apenas destaca uma grave crise ambiental, mas também marca o fim de uma era histórica para um país que, na década de 1950, era palco de competições de esqui cross-country. Esse cenário evidencia a necessidade urgente de que governos ao redor do mundo implementem medidas climáticas eficazes. Sem ação imediata, corremos o risco de alcançar um ponto de irreversibilidade nos danos ao nosso planeta.