Vermes antigos revivem após 46.000 anos congelados no permafrost da Sibéria
Por Sandro Felix
Publicado em 29/10/23 às 07:14
Um antigo e notável feito da natureza vem à tona: um verme nematóide, também conhecido como lombriga, conseguiu retomar a vida após permanecer congelado no permafrost siberiano por impressionantes 46 mil anos. Este fenômeno fascinante foi documentado por meio de análises de radiocarbono, que dataram a criopreservação desses minúsculos organismos no final do Pleistoceno, entre 45.839 e 47.769 anos atrás. Uma verdadeira demonstração de resiliência e de uma capacidade rara de sobrevivência em condições extremas.
Esses nematóides pertencem a uma espécie até então desconhecida pela ciência, denominada Panagrolaimus kolymaensis. São uma prova viva da criptobiose, um estado de dormência no qual todos os processos metabólicos mensuráveis são interrompidos, aguardando condições ambientais mais favoráveis. Não é a primeira vez que essa façanha é observada, uma vez que em 2018, nematóides suspeitos de criptobiose por 42.000 anos também foram ressuscitados. No entanto, a descoberta mais recente retrocede a vários milênios.
Além dos nematóides, outros organismos capazes desse feito notável incluem os tardígrados e os rotíferos. Em um caso particularmente surpreendente, um esporo bacteriano foi encontrado preservado em âmbar, permanecendo intacto por entre 25 e 40 milhões de anos.
Esses P. kolymaensis foram coletados em uma profundidade de 40 metros no permafrost, às margens do rio Kolyma, no nordeste da Sibéria, uma região que tem se revelado um verdadeiro tesouro de descobertas antigas e surpreendentes, abrigando desde DNA antigo de vírus e até um urso inteiro.
A análise de radiocarbono de material vegetal nas amostras do permafrost permitiu datar esses nematóides no final do Pleistoceno, enquanto a análise genômica revelou que se tratava de uma espécie não anteriormente descrita.
Os pesquisadores cultivaram esses vermes por mais de 100 gerações e compararam seu genoma com o de um parente existente, o Caenorhabditis elegans, identificando genes comuns envolvidos na criptobiose. A esperança é que essa pesquisa possa levar a uma compreensão mais profunda dos mecanismos que sustentam esse estado misterioso, potencialmente abrindo caminho para novos métodos de armazenamento a longo prazo de células e tecidos. Além disso, os cientistas estão curiosos para descobrir se há um limite máximo para o tempo que os nematóides podem permanecer em estado criptobiótico.
Como os autores do estudo concluem, essas descobertas têm implicações importantes para nossa compreensão dos processos evolutivos, já que os tempos de geração podem ser estendidos de dias a milênios, e a sobrevivência a longo prazo de indivíduos de espécies pode permitir a ressurreição de linhagens que de outra forma seriam extintas. Este estudo foi publicado na revista científica PLOS Genetics.